Val Kilmer fará sua estreia em um novo filme utilizando tecnologia de inteligência artificial, com a aprovação de sua filha. O que ocorreu? Kilmer foi escolhido para interpretar o padre Fintan, um sacerdote católico com vínculos com a espiritualidade indígena, no filme “As Deep as the Grave”. No entanto, ele não conseguiu participar das filmagens devido a problemas de saúde, conforme revelado pela revista Variety.
Mercedes Kilmer, a filha do ator, expressou seu apoio ao projeto e mencionou que seu pai via as novas tecnologias como aliadas na arte de contar histórias. “Ele sempre teve uma visão otimista sobre inovações tecnológicas, considerando-as ferramentas para ampliar as narrativas. Esse espírito é algo que todos nós estamos respeitando neste filme, do qual ele faz parte fundamental”, declarou em um comunicado.
O diretor e roteirista Coerte Voorhees destacou que o papel foi originalmente concebido para Kilmer, conectando-se à sua história pessoal. “Ele era o ator ideal para esse papel. A narrativa foi moldada em torno dele, levando em conta sua herança indígena e seu amor pelo Sudoeste dos Estados Unidos. Recentemente, eu estava revisando uma programação de filmagem, pronto para começar, mas ele estava enfrentando um momento médico muito complicado e não pôde participar”, contou.
Apesar de nenhuma cena ter sido filmada, a equipe decidiu conservar o personagem e utilizar IA generativa para incorporar Kilmer ao elenco. “A família dele sempre fez questão de enfatizar o quão importante era o filme e que Val realmente queria fazer parte disso. Ele acreditava que essa era uma história significativa e desejava que seu nome estivesse associado a ela. Esse apoio me deu confiança para seguir em frente. Embora algumas pessoas possam considerar controverso, foi isso que Val desejava”, afirmou Coerte Voorhees à Variety.
John Voorhees, produtor e irmão do diretor, observou que a condição do personagem reflete a trajetória de saúde do ator. “O personagem do filme também enfrenta tuberculose, o que espelha a verdadeira condição de Val durante sua luta contra o câncer de garganta. Em termos de voz, essa é uma oportunidade única para o personagem expressar a situação pela qual o ator estava passando, criando uma conexão especial”, disse.
O longa utiliza imagens de Kilmer em sua juventude, muitas delas cedidas pela família, além de registros dos últimos anos, para retratar o personagem em diferentes momentos da narrativa. A produção também faz uso da voz do ator, que foi afetada por um procedimento de traqueostomia, assegurando que seguiu as diretrizes do sindicato SAG e compensou a herança pelo uso da imagem.
A trama de “As Deep as the Grave” é baseada em eventos reais envolvendo os arqueólogos Ann e Earl Morris. A narrativa se desenrola em torno das escavações no Canyon de Chelly, no Arizona, em busca da história do povo navajo. De acordo com os realizadores, a versão gerada por IA de Kilmer ocupa uma “parte significativa” do filme, que conta com atuações de Abigail Lawrie, Tom Felton, Wes Studi e Abigail Breslin.
Essa produção independente levou seis anos para ser concluída e enfrentou interrupções devido à pandemia de covid-19. Em um determinado momento, as cenas do padre Fintan foram cortadas por questões orçamentárias, mas a equipe percebeu que era essencial reintegrá-las para finalizar a narrativa de forma satisfatória.
O uso de IA e a questão do consentimento também foram abordados pelos irmãos Voorhees, que reconheceram que essa prática pode suscitar críticas. Contudo, enfatizaram que buscaram um caminho ético. “Percebemos que esse era um elemento crucial que estava faltando. Normalmente, optamos por substituir o ator. Sou totalmente a favor de trabalhar com nossos atores e temos atuações brilhantes ao longo do filme. Porém, não temos a possibilidade de voltar às filmagens ou o orçamento necessário. Assim, tivemos que ser criativos e percebemos que a tecnologia estava à nossa disposição”, explicou Coerte Voorhees.
Em vida, Kilmer já havia utilizado tecnologia de voz por IA ao reprisar seu papel como Iceman em “Top Gun: Maverick”, de 2022. “Como seres humanos, a capacidade de nos comunicarmos é fundamental para nossa existência, e os efeitos colaterais do câncer de garganta dificultaram a compreensão pelos outros. A oportunidade de narrar minha história com uma voz que soa autêntica e familiar é um presente extremamente especial”, declarou o ator em uma declaração anterior.