Uma década atrás, o Globoplay entrava no cenário das plataformas de streaming. Embora seu início tenha sido modesto, com a transmissão ao vivo da TV Globo e uma seleção limitada de conteúdos sob demanda, o serviço evoluiu significativamente desde então. Atualmente, a meta da plataforma é ultrapassar o gigante do setor, a Netflix.
Na quarta-feira, 29, Julia Rueff, diretora-executiva do Globoplay; Tatiana Costa, responsável pela Gestão de Conteúdo de Produtos Digitais e Canais Pagos; e Manuel Belmar, diretor de Produtos Digitais, Finanças, Jurídico e Infraestrutura da Globo, se reuniram com a imprensa para celebrar o décimo aniversário da plataforma e discutir seus planos futuros.
“O Globoplay é uma força brasileira que compete em um mercado repleto de gigantes e nós estamos entre eles”, declarou Julia. “O que precisamos para nos tornarmos líderes? Um pouco mais de tempo. Estamos vendo crescimento em várias áreas: base de usuários, audiência, consumo, alcance, receitas publicitárias, assinaturas e distribuição… tudo aponta para cima.”
No que tange ao engajamento, o Globoplay ocupa a segunda posição no Brasil, com 1,5% da audiência total de vídeo. A Netflix mantém a liderança com 4,4%, enquanto o Prime Video possui 1%. HBO Max e Disney+ seguem atrás, com 0,5% e 0,4%, respectivamente. Importante destacar que esse ranking não inclui plataformas como YouTube (20%) e TikTok (4,6%), que operam sob modelos de negócios diferentes.
A plataforma brasileira enfatiza seu destaque em outro aspecto: o tempo médio de visualização diário, que é de 2h09 por usuário, superando as 1h50 do segundo colocado, conforme dados da Kantar Ibope. O Globoplay oferece parte de seu conteúdo, como a transmissão ao vivo da TV aberta, gratuitamente, mas não revela quantos dos 30 milhões de usuários ativos mensais estão na modalidade paga.
De acordo com suas próprias estatísticas, 67% das horas assistidas na plataforma são de conteúdo ao vivo, que inclui novelas, futebol, Big Brother Brasil e eventos como Rock in Rio e The Town. Recentemente, a plataforma adquiriu os direitos de transmissão da NFL e da Fórmula 1, e para 2026, já planeja uma cobertura extensa da Copa do Mundo masculina da FIFA, entre outras atrações.
A crescente competição nesse setor está evidente, com outras plataformas também se aventurando nesse território. A Netflix, por exemplo, conquistou os direitos de transmissões da NFL e esteve próxima de adquirir o UFC.
A vantagem competitiva do Globoplay reside em seu “ecossistema robusto”, como afirmou Manuel Belmar. As atrações ao vivo mencionadas na apresentação não são exclusivas do serviço, mas sim transmissões de outras marcas do conglomerado, como Sportv, Multishow e a nova GE TV, que fazem parte do pacote da plataforma.
Apesar da fragmentação atual do mercado, o executivo destacou que “o portfólio de direitos da Globo ainda é o mais abrangente, em termos relativos, de qualquer grupo de mídia”.
Uma das estratégias para continuar crescendo é focar no público feminino acima de 35 anos, que representa 65% da base de usuários. Para isso, a empresa está desenvolvendo o que internamente chamam de “globorama”. “Estamos observando o crescimento das novelas turcas e dos doramas e, por isso, fizemos uma provocação aos nossos colegas dos Estúdios Globo”, revelou Tatiana.
Dessa iniciativa surge “Vidas Paralelas”, uma novela leve e curta, com apenas 40 episódios, baseada em uma sinopse de Walcyr Carrasco, voltada para esse público. A plataforma terá a exclusividade da primeira exibição, enquanto a TV Globo a receberá um ano depois.
Além disso, uma novidade que está gerando expectativa é o investimento em microdramas, pequenas novelas exibidas em formato vertical, alinhadas às redes sociais, com narrativas que prendem a atenção do espectador. A empresa anunciou que dez produções nesse formato serão lançadas na plataforma em 2026.
Outro destaque que o Globoplay fez questão de compartilhar é sua presença em premiações internacionais, como a de “Ainda Estou Aqui”, o primeiro filme brasileiro a conquistar um Oscar. No próximo ano, o streaming contará com oito séries “premium” e doze documentários —um a cada mês.
A nova estratégia se concentra em projetos com potencial de exportação, visando ampliar receitas e diversificar custos, sem se restringir apenas ao mercado brasileiro. “Entre conteúdos que são bons, mas não têm potencial de ‘viajar’, optaremos por aqueles que rompem fronteiras. Estamos animados com coproduções, algo que a Globo tentou no passado com pouco sucesso, mas estamos revendo essa abordagem. O cenário atual favorece as coproduções, e estamos seguindo uma estratégia promissora”, explicou Tatiana Costa.
Durante a coletiva, Tatiana também revelou a parceria de coprodução entre Globoplay e Disney, firmada em 2023, que visa a realização de quatro longas-metragens. Esses filmes terão sua estreia nos cinemas antes de serem disponibilizados simultaneamente nas plataformas de ambas as empresas.
Além da Disney, foram mencionadas colaborações com Telemundo (EUA), Beta Film (Alemanha) e Fremantle (Reino Unido), sempre focando em contar histórias brasileiras em português, valorizadas por players globais.
Tatiana ainda trouxe duas novidades para o futuro: após o sucesso da minissérie “Dias Perfeitos”, o Globoplay adaptará um segundo livro do autor Raphael Montes, intitulado “Uma Mulher no Escuro”, um thriller psicológico. Também será desenvolvida a série “Paranóia” em parceria com Ron Leshem, criador de “Euphoria”, da HBO, embora ainda sem data de lançamento.
Quanto às finanças, foi confirmado que o Globoplay alcançou a rentabilidade em 2025, antecipando-se ao que foi prometido ao mercado. Segundo Manuel Belmar, a plataforma “já está no azul”, após um crescimento de 42% na base de assinantes em 2024 e de 30% em 2025.
Entretanto, a empresa não divulga os números do streaming isoladamente, apresentando-os apenas no balanço geral do grupo. Isso levanta questões sobre a real origem do lucro, que pode estar ligado a subsídios internos e à inclusão de canais lineares, e não necessariamente ao desempenho exclusivo da plataforma.
Os executivos também destacaram a publicidade digital como um vetor de crescimento. “Estamos na vanguarda”, afirmou Julia Rueff. Embora o plano com anúncios tenha sido lançado apenas no ano passado, o Globoplay já exibia propagandas desde seu início. Em 2024, a receita publicitária cresceu 86% e continua em ascensão em 2025. Essa combinação de assinaturas e publicidade, uma estratégia que as plataformas internacionais ainda estão começando a implementar, é vista como um dos pilares para a sustentabilidade.
Assim, em dez anos, o Globoplay se desenvolveu e amadureceu, antecipando-se de forma intuitiva e herança do DNA da Globo em tendências como esportes ao vivo e publicidade.
Sem dúvida, é um gigante no Brasil, e é encorajador ver uma empresa nacional competindo com corporações multinacionais cada vez mais robustas. Contudo, ainda está mais próxima de ser ultrapassada por quem vem atrás do que de alcançar quem está à frente.
Aguardemos os próximos capítulos dessa narrativa bem brasileira.
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