“Sempre tive o desejo de participar de um novo ‘Star Wars’.” Essa frase pode parecer apenas um comentário casual de Adam Driver em uma entrevista, mas veio acompanhada de uma grande revelação: esse “desejo” se referia a um projeto que traria de volta seu icônico personagem, Kylo Ren, sob a direção de Steven Soderbergh. O roteiro já estava finalizado, e a Lucasfilm estava animada com a ideia. No entanto, a Disney decidiu vetar a proposta.
Esse tipo de situação não é novidade em Hollywood. Projetos surgem e desaparecem, estúdios investem enormes quantias em roteiristas e cineastas para desenvolver filmes que, após longos períodos de espera, acabam sendo engavetados. Atores muitas vezes ficam anos vinculados a projetos que nunca se concretizam. Essa dinâmica é uma parte comum da indústria cinematográfica.
Contudo, o retorno de Adam Driver a “Star Wars” parecia ter um peso diferente. A relevância da marca e dos profissionais envolvidos tornava o projeto ainda mais significativo, especialmente considerando o estágio avançado em que se encontrava antes de ser cancelado. Intitulado “The Hunt for Ben Solo”, que faz referência ao nome original do personagem antes de se tornar Kylo Ren, o projeto foi desenvolvido por Soderbergh e apresentado à produtora Kathleen Kennedy e à alta cúpula da Lucasfilm. Com um roteiro encomendado a Scott Z. Burns (“O Ultimato Bourne”, “Contágio”), a proposta foi bem recebida pela Lucasfilm e por Driver, sendo elogiada por sua abordagem inovadora na saga. No entanto, ao chegar nas mãos de Bob Iger e Alan Bergman, a resposta foi um “não”, resultando na morte do projeto. “Perguntei à Kathleen se algum roteiro aprovado pela Lucasfilm havia sido rejeitado pela Disney antes”, recorda Soderbergh. “E ela disse que não, que foi a primeira vez.”
Para entender a situação, é preciso considerar o que aconteceu com “Star Wars” desde que a Lucasfilm se tornou parte do império Disney em 2012. Antes disso, como produtora independente, a Lucasfilm havia realizado seis filmes, contando a trilogia original e as prequelas. Com a Disney por trás, a marca realmente se expandiu, culminando em “O Despertar da Força” em 2015, que trouxe de volta personagens icônicos e arrecadou US$ 2 bilhões, representando metade do investimento feito pela Disney para adquirir a franquia. Um grande sucesso, sem dúvida.
A partir daí, as portas se abriram. Dois anos depois, “Os Últimos Jedi” chegou às telonas, desafiando a narrativa tradicional ao apresentar Luke Skywalker (Mark Hamill) como um herói imperfeito. Entretanto, a trilogia foi encerrada com “A Ascensão Skywalker”, um filme decepcionante que destruiu a capacidade da saga de surpreender. Desde então, “Star Wars” não tem sido visto nos cinemas.
Um dos grandes atrativos de “Star Wars” sempre foi sua capacidade de criar eventos cinematográficos. No entanto, a abordagem da Disney parecia focar em ampliar a base de fãs por meio de um excesso de produtos. O lançamento de “The Mandalorian” em 2019 foi um ótimo início, mas a avalanche de novos conteúdos acabou diluindo o impacto da marca. O retorno de Luke Skywalker na série deixou de ser um momento grandioso, e outras produções como “Obi-Wan Kenobi” tiveram um efeito semelhante, tornando-se menos memoráveis.
Com a ausência de “Star Wars” nas telonas por seis anos e um gosto amargo deixado por um filme mal recebido, projetos como “Rogue Squadron”, de Patty Jenkins, e novas histórias comandadas por Taika Waititi e Rian Johnson permanecem no limbo, sem previsão de lançamento. O que está agendado, até o momento, é “Star Wars: O Mandaloriano e Grogu” para o próximo ano e “Star Wars: Starfighter”, com Ryan Gosling, programado para 2027 – um marco que celebra os 50 anos da aventura original de George Lucas.
“The Hunt for Ben Solo” poderia ter sido um projeto ideal para reintegrar a franquia ao cinema. A possibilidade de contar com um diretor do calibre de Steven Soderbergh, que navega facilmente entre produções independentes e grandes estúdios, poderia trazer um novo fôlego à narrativa. Às vezes, correr riscos pode ser o caminho certo para revitalizar a marca, afastando-se de interesses corporativos rígidos.
A justificativa de Iger e Bergman de que “Ben Solo estaria morto” após os eventos de “A Ascensão Skywalker” não é uma barreira definitiva em um universo onde a tecnologia e a magia reinam. Adam Driver afirmou que a história poderia trazer o personagem de volta sem infringir as regras narrativas de “Star Wars”. O enredo de “The Hunt for Ben Solo” se passaria após os eventos do último filme, e como a personagem de Daisy Ridley, Rey, também possui um projeto em desenvolvimento (“A Nova Ordem Jedi”), haveria uma oportunidade de remediar os erros do filme anterior e explorar personagens que, embora não tenham impactado a cultura pop como seus antecessores, ainda têm potencial.
“Star Wars” sempre foi sobre continuidade, entrelaçando conflitos políticos espaciais com dramas familiares profundos. Descartar a chance de trabalhar com um autor como Soderbergh parece uma decisão questionável. “Eu adorei fazer o filme em minha cabeça”, comentou o diretor, lamentando que os fãs não terão a oportunidade de vê-lo.
Por outro lado, a suposta morte de Kylo Ren pode não ser tão definitiva, com um grupo de fãs fazendo campanha para que a Disney reconsidere e dê vida a este projeto. Afinal, em Hollywood, coisas mais estranhas já aconteceram.