“Alien: Earth” traz uma sensação de familiaridade, sendo a primeira vez que a icônica série de terror espacial se adapta ao formato de série televisiva. O episódio inaugural se passa a bordo do cargueiro espacial Maginot, onde a tripulação desperta da hibernação e se envolve em conversas triviais. À medida que a trama se desenvolve, a narrativa se expande para a Terra, revisitanto conceitos que Ridley Scott introduziu há mais de quarenta anos. No entanto, ao chegarmos ao quinto episódio, o verdadeiro horror finalmente emerge das sombras.
Mas vamos voltar um pouco. Esta série é fruto da mente criativa de Noah Hawley, conhecido por suas obras-primas “Fargo” e “Legion”. O formato de uma série de TV possui uma dinâmica distinta em comparação ao cinema, mas é inevitável que os detentores de propriedades intelectuais busquem expandir suas franquias. A chegada de “Alien” à televisão era apenas uma questão de tempo, e “Alien: Earth” se apresenta como um spin-off que respeita a essência da obra original.
Os filmes “Alien, o Oitavo Passageiro”, de Ridley Scott, e “Aliens, o Resgate”, dirigido por James Cameron, estabelecem as bases da franquia, equilibrando terror e ação. As tentativas de expandir esse universo sempre seguiram essa dualidade, muitas vezes inclinando-se para um dos lados. O controverso “Alien³”, de David Fincher, teve sua visão comprometida pelo estúdio, enquanto “Alien – A Ressurreição”, de Jean-Pierre Jeunet, acabou se mostrando desconexo, apesar de alguns bons momentos.
Após um hiato marcado por “Alien vs Predador”, um filme que mais parecia uma fanfic de adolescentes, Ridley Scott retornou com “Prometheus” e “Alien: Covenant”, ambos belos, embora imperfeitos, na tentativa de aprofundar a mitologia. O recente “Alien Romulus”, dirigido por Fede Álvarez, foi uma excelente correção de rumo para a franquia no cinema.
Nos filmes, a presença do xenomorfo sempre dominou a narrativa, espreitando em corredores mal iluminados, criado pelo artista H.G. Giger, cuja obra se tornou um ícone do cinema. No entanto, o verdadeiro antagonista de toda a saga é a corporação Weyland-Yutani, que simboliza a avareza do capitalismo, atropelando qualquer vestígio de humanidade.
“Alien: Earth” se propõe a romper com esse padrão, expandindo as ideias da obra original. Sob a direção de Noah Hawley (com Ridley Scott na produção), a série é mais política e rica em personagens, ampliando seu escopo. Em vez de focar apenas no conflito entre humanos e xenomorfos, a narrativa apresenta um futuro em que o mundo é dividido em cinco regiões geopolíticas, dominadas por mega corporações, incluindo a Weyland-Yutani, que competem entre si por controle.
A trama se passa em 2120, dois anos antes do icônico encontro de Ellen Ripley com o xenomorfo, e se fundamenta em três categorias pós-humanas: os sintéticos, que são robôs à imagem de humanos (como Ash em “Alien” e Bishop em “Aliens”); os ciborgues, humanos aprimorados com tecnologia biônica; e os híbridos, corpos criados para abrigar consciências humanas transplantadas.
Nesse contexto, o Maginot, que transporta cinco espécies alienígenas para fins militares, incluindo o xenomorfo, cai em território da Prodigy, outra mega corporação futurista. A luta pelo controle dessa carga alienígena divide-se entre um grupo de híbridos da Prodigy e um ciborgue da Weyland-Yutani, o único sobrevivente da nave.
O episódio de abertura foca em Morrow (interpretado por Babou Ceesay), que se prepara para a queda da nave após a morte da tripulação, enquanto um xenomorfo solto representa uma ameaça. Após essa introdução, somos apresentados à protagonista Wendy (Sydney Chandler), uma híbrida em adaptação ao seu novo corpo adulto, que foi transformado devido a uma doença terminal. As referências a Peter Pan podem parecer exageradas, mas são relevantes no contexto.
Isolada com seus semelhantes sob a supervisão de Boy Kavalier (Samuel Blenkin), o poderoso chefe da Prodigy, Wendy busca se destacar para investigar o local do acidente, na esperança de encontrar seu irmão, Hermit (Alex Lawther), que ainda não sabe de sua condição atual. Os quatro primeiros episódios de “Alien: Earth” são dedicados a desenvolver personagens, conflitos e riscos, além de introduzir uma variedade de criaturas alienígenas. Essa nova dinâmica realmente impulsiona a mitologia da série.
Chegamos, então, ao quinto episódio, onde a verdadeira intensidade começa. O enredo retrocede para os dias que antecederam a queda do Maginot, revelando o que levou a tripulação a perder o controle da nave, transformando-a em um projétil em direção à Terra. Aqui, a influência de “Alien” e “Aliens” se equilibra de maneira impressionante, demonstrando o potencial de “Alien: Earth”.
A história inicia de forma familiar, com a tripulação alternando a hibernação após uma missão de exploração de 65 anos. A ambição capitalista sugere a presença de um sabotador que compromete a trajetória da nave, resultando em desconfiança e paranoia entre a tripulação, enquanto as criaturas capturadas conseguem escapar. O resultado é devastador. Dirigido pelo próprio Noah Hawley, o episódio intitulado “No Espaço Ninguém Poderá…” faz referência à famosa frase do poster do filme original e é marcado por cenas de violência e repulsa, apresentando personagens bem construídos e culminando em um cliffhanger que transforma a percepção da série até seu final.
Expandir uma propriedade intelectual é uma tarefa desafiadora e raramente gratificante. Muitas vezes, reimaginações de marcas poderosas se deparam com a devoção extrema ao material original ou com a necessidade de redesenhar toda a narrativa sem respeitar sua essência. “Alien: Earth” consegue, ao ousar traçar seu próprio caminho, adicionar elementos que honram a história de “Alien” enquanto vislumbram um futuro promissor. É a evolução sugerida por “Romulus”, agora em um caminho mais sombrio, envolvente e surpreendente. E o xenomorfo? Continua a ser a criatura mais fascinante da cultura pop.