“Meu Deus, que incrível!” David Dastmalchian mal consegue conter sua animação antes mesmo de começarmos nossa conversa, questionando se sou admirador de Zé do Caixão. Ao responder que já o conheci, sua empolgação é evidente: “Cara, ele é um dos meus diretores favoritos!”.
Sua admiração por José Mojica Marins, o cineasta brasileiro responsável por clássicos como “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”, que ganhou novos fãs nos anos 1990 nos Estados Unidos sob o nome de Coffin Joe, é parte da missão pessoal de Dastmalchian em explorar e apoiar o cinema de terror globalmente.
“Rosario”, um filme americano filmado em Bogotá sob a direção do colombiano Felipe Vargas, se insere nessa trajetória, sendo uma obra de terror contemporânea que dialoga com a tradição do terror religioso latino-americano. “Estava jogando ‘Dungeons & Dragons’ com o produtor John Silk, que falou sobre um diretor talentoso prestes a iniciar um projeto”, recorda. “Ele mencionou que o filme possuía uma estética semelhante à de Sam Raimi, como ‘A Morte do Demônio’ e ‘Arraste-me Para o Inferno’, e abordava lendas e práticas espirituais pouco exploradas no cinema.”
Esse convite ao desconhecido cativou o ator, que iniciou sua carreira cinematográfica em 2008 com “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, e aguçou seu interesse por narrativas de diversas culturas. “É essencial interpretar personagens de realidades distintas”, revela. “Particularmente em um período como o atual, onde muitos no poder tentam nos fazer acreditar que imigrantes e praticantes de outras religiões são vilões.”
A religião é um elemento central em “Rosario”. A protagonista, uma investidora de Wall Street (Emeralde Toubia), recebe a notícia da morte de sua avó, com quem havia perdido contato, e enfrenta a burocracia para lidar com a remoção do corpo. Durante uma nevasca em Nova York, Rosario se vê presa no apartamento, mergulhando nas práticas religiosas da avó, que incluíam rituais de sacrifício de sangue, e acaba sendo ameaçada por um demônio.
“Acredito que o cinema tem o poder de mostrar que somos todos semelhantes”, reflete Dastmalchian, que em “Rosario” interpreta o vizinho da avó falecida, possivelmente conectado às práticas sobrenaturais. “No fundo, é um filme sobre a morte, sobre a perda daqueles que amamos, e sobre a dificuldade de honrar nossos antepassados enquanto seguimos em frente. Adoro esses temas”.
A busca por diferentes manifestações do terror tornou-se uma marca registrada de Dastmalchian. “Quando você chega a uma certa idade como eu, sentado em casa, é preciso encontrar novas vozes que nos inspirem”, brinca. “Essa busca por produções internacionais de terror é o que me mantém ativo, filmes desafiadores e arrepiantes do Sudeste Asiático e do Leste Europeu, criados por artistas que arriscam suas expressões”, comenta. “São vozes da África, do Oriente Médio e de regiões onde a liberdade de expressão é limitada.”
Fascinado por quadrinhos (“Adoraria interpretar a versão da Marvel de ‘A Tumba de Drácula’, revela), David construiu uma carreira rica em filmes como “Homem-Formiga”, “O Esquadrão Suicida” e “Oppenheimer”. O diretor Denis Villeneuve o selecionou para “Os Suspeitos”, “Blade Runner 2049” e “Duna”. Entretanto, ele se tornou um verdadeiro patrono do terror independente, ajudando a trazer à luz projetos como “Entrevista com o Demônio” e “Boogeyman”.
“Quero oferecer mais apoio e oportunidades a esses cineastas”, afirma com determinação. “Amo explorar o mundo dessa forma, isso nos une. Somos todos apaixonados pelo terror, independentemente da língua que falamos ou do país de onde viemos.” O ator se anima ao falar sobre essa conexão silenciosa que o gênero proporciona. “Meu espanhol é horrível, mas ao assistir a ‘O Mal Que Nos Habita’, mesmo sem entender as palavras, eu me envolvi completamente na experiência humana, tão bela, aterrorizante e autêntica.”
Sua admiração pela obra de José Mojica Marins, cujos pôsteres adornam seu escritório, não é uma surpresa. Após expressar seu carinho pelo cineasta brasileiro, um dos grandes ícones do terror mundial, comento que os direitos do personagem Zé do Caixão estão em um limbo, com um filme planejado há alguns anos com Elijah Wood que nunca se concretizou.
Quando sugiro que ele poderia criar uma versão interessante do personagem, Dastmalchian me interrompe animado. “Me dê as unhas! Eu quero as unhas e o chapéu!”, exclama, quase pulando da cadeira. “Eu adoraria interpretar Zé do Caixão se fizéssemos uma adaptação americana do personagem”, conclui, antes de refletir. “Mas esse filme precisaria contar com um ator brasileiro, e eu adoraria ir ao Brasil!”