O Oscar, também conhecido como Academy Awards, se aproxima de seu centésimo aniversário enfrentando uma crise de relevância. Uma vez considerado um dos maiores eventos televisivos do mundo, a premiação agora se vê desafiada a se adaptar às novas dinâmicas da mídia contemporânea.
Na década de 1980, seus organizadores falavam em uma audiência global de até 1 bilhão de pessoas. Hoje, tais estimativas são evitadas. Nos EUA, a audiência do evento caiu drasticamente, passando de 37,3 milhões de espectadores em 2015 para apenas 19,7 milhões em 2025.
Enquanto o interesse do público por uma cerimônia que dura quase quatro horas diminui, um novo fenômeno ganha força. Dados da Nielsen indicam que o YouTube já representa 13,4% da audiência em televisores conectados nos lares americanos, oferecendo uma variedade de conteúdos, incluindo transmissões ao vivo que podem se estender por várias horas.
Recentemente, o YouTube, plataforma do Google, demonstrou interesse em adquirir os direitos de transmissão do Oscar. Segundo informações da Bloomberg, o serviço de streaming consultou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas sobre a possibilidade de exibir o evento a partir de 2029, após o término do contrato atual com a ABC.
A emissora aberta, pertencente à Disney, tem sido responsável pela transmissão do Oscar por quase cinquenta anos, mas agora enfrenta a concorrência de grandes grupos de mídia e plataformas de streaming, incluindo Netflix, Amazon (dona do Prime Video), NBCUniversal e Paramount Skydance (da CBS e Paramount+).
Estabelecer um acordo com a Netflix poderia ser uma jogada inteligente, garantindo uma plataforma com alcance global e interesse em promover o Oscar, que se tornou um fenômeno na televisão com produções como “Wandinha” e “Round 6”. A Netflix já possui um evento de premiação em Hollywood: o Screen Actors Guild Awards, que em 2024 teve 4,3 milhões de visualizações — mais que o dobro dos números de 2022 nos canais pagos TNT e TBS.
Entretanto, o interesse do YouTube é um fator que pode mudar completamente o cenário. Para a Academia, isso representaria a chance de se associar a um parceiro que possui um alcance quase tão grande quanto a televisão aberta.
Se o YouTube começou sua trajetória há duas décadas com vídeos curtos, hoje se consolidou como uma plataforma que abriga uma variedade de conteúdos, incluindo transmissões ao vivo, que são parte de sua estratégia para aumentar o tempo de permanência dos espectadores. A prática de comentar ao vivo eventos como o Oscar também se tornou comum, gerando receita para o Google.
O aspecto financeiro é crucial nessa negociação. Ao adquirir os direitos de transmissão diretamente, é possível que o YouTube adote um modelo diferente do seu habitual, que divide a receita de anúncios. Isso abriria portas para vendas de anúncios mais premium, com valores superiores ao que normalmente cobra, possivelmente até para usuários da versão paga, isenta de publicidade.
Para a indústria cinematográfica como um todo, essa parceria poderia ser uma forma de reconquistar um público que parece menos interessado nas produções indicadas ou até mesmo na experiência de ir ao cinema. Dados do eMarketer revelam que 54,3% da audiência do YouTube está na faixa etária de 18 a 34 anos, em contraste com a média de 66 anos dos espectadores da ABC, conforme a Nielsen.
Em um cenário onde a bilheteira global do cinema caiu de US$ 42 bilhões em 2019 para US$ 32,3 bilhões em 2024, a entrada do YouTube pode ser um sopro revitalizante para as salas de cinema. Quem poderia imaginar isso?
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