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‘Amores que Valem Ouro’: será que não existem homens para mulheres maduras?

À primeira vista, a trama parece saída de uma novela de vilãs: uma mulher termina com seu namorado por ele ser financeiramente desfavorecido e se envolve com um homem rico, calculando os custos de cada jantar chique que ele a leva, sempre que ele coloca o guardanapo de linho em seu colo. Superficial, certo?
Não exatamente. Ao longo de “Amores que Valem Ouro”, o novo filme de Celine Song, Lucy (interpretada por Dakota Johnson) revela suas razões. Ela está determinada a escapar da vida simples que levou, oriunda de seus pais. No entanto, não contava que, no início da vida adulta, surgiria um aspirante a ator (John, interpretado por Chris Evans), que, embora carente de ambição e estabilidade financeira, a cativasse de maneira intensa. Quando até o custo do estacionamento compromete a comemoração de seu aniversário de namoro, ela perde a paciência. Não quer mais discutir questões financeiras; anseia por uma mudança de vida.

Lucy inicia a narrativa conversando com uma amiga sobre seu celibato voluntário, um tema que ganhou destaque recentemente devido ao número crescente de mulheres que optam por não se relacionar. Esse fenômeno possui vários rótulos, e “boy sober” é o que mais me faz rir, já que, em tradução livre, significa “sóbria de homens”, como se os homens fossem uma substância tóxica (alguns realmente são, mas há muitos homens legais por aí, certo?).

Um número significativo de mulheres por volta dos 40 anos (Lucy tem 35) decidiu desistir de buscar relacionamentos. Para elas, a solidão representa um alívio de não ter que lidar com interferências em suas vidas, que se concentram em prioridades como a carreira ou a ideia de que são o próprio amor de suas vidas. Ok. Mas a mente, influenciada pelo algoritmo das redes sociais, se torna um pouco mimada e conviver com pessoas reais, com suas falhas e virtudes, se torna um desafio.

Lucy trabalha em uma agência de relacionamentos onde os clientes escolhem características desejadas. Altura, profissão, faixa salarial e patrimônio são apenas algumas das exigências. Tanto homens quanto mulheres são criteriosos — não é aceitável, por exemplo, que uma mulher de 39 anos, mesmo que perfeita em outros aspectos, seja considerada. “Mulheres com 40 anos estão fora de cogitação”, argumenta um cliente. Diante de tantos absurdos que escuta diariamente, é natural que Lucy, especialista em relações, decida se afastar do amor.

“A solução real é dar um tempo no jogo do amor?”, questiona Fernanda Paes Leme em um episódio de seu podcast O Grande Surto, que aborda exatamente essa questão. “Em vez de procurar alguém, a resposta seria encontrar-se sozinha?”, indaga. Os convidados incluem a influenciadora Nathalie Billio, que promove um movimento de detox masculino em suas redes sociais, e Thomas Schultz, um psicólogo especializado em relacionamentos.

“Um relacionamento é uma plataforma de crescimento onde o outro revela aspectos de você que você não percebe”, afirma ele, defendendo a importância de estar a dois. Contudo, ele também ressalta que ser autossuficiente é vantajoso. É essencial, porém, fazer uma análise cuidadosa para discernir se a autossuficiência é uma defesa contra possíveis feridas em futuras relações. “O divórcio tem seu lado positivo, que é a tranquilidade de não precisar entrar em um novo relacionamento rapidamente. Mulheres entre 40 e 55 anos que se separam percebem que é bom quando o mundo é delas, sem precisar dar explicações a ninguém. A individualidade se desenvolve melhor, quase de forma egoísta”, explica.

Lucy parece estar satisfeita com essa fase. Até que ela conhece Harry (Pedro Pascal), que, entre outras qualidades, não tem problemas financeiros. Os jantares são sofisticados, as roupas são luxuosas, e seu apartamento vale 12 milhões de dólares (ela chega a perguntar sobre o preço antes de se envolver com ele). O fascínio por homens considerados “unicórnios”, perfeitos, a leva a ceder. A chave do apartamento deslumbrante que ganha na manhã seguinte também contribui para sua decisão.

Entretanto, ao olhar mais de perto, nem os personagens do filme se mostram tão atraentes assim. E, convenhamos, eles são interpretados por Pedro Pascal e Chris Evans, que atraem multidões de fãs. Harry possui todos os atributos, mas esconde inseguranças que o impedem de se entregar por completo. O que motiva sua disposição em pagar as contas? Isso não é exatamente cativante.

Por outro lado, John parece conhecer a essência de Lucy e, com ele, ela se sente mais à vontade para se abrir. Um ponto para ele. Contudo, se o desejo de Lucy não é criar um filho compartilhando um apartamento com inquilinos estranhos, é válido questionar se realmente vale a pena o investimento emocional (minha opinião: sempre vale a pena quando há amor, mesmo que as dificuldades sejam desafiadoras).

Xuxa, em uma famosa entrevista dos anos 90, declarou: “não tem homem para mim no Brasil”. Essa frase, na verdade, pertencia a Ayrton Senna, que a expressou de maneira um tanto polêmica. Se não havia outras opções, ela deveria se casar com ele mesmo. Xuxa tinha 30 anos quando adotou a frase do ex e a fez sua. Trinta anos depois, essa declaração se tornou um meme e uma camiseta. Muitas mulheres se identificaram com isso. Mas será que realmente não há pares disponíveis ou simplesmente não toleramos mais as diferenças — ou o que antes considerávamos aceitável, mas que agora reconhecemos como intolerável, por medo da solidão? As maratonas da Netflix não apresentam riscos, apenas conforto. O medo da solidão se tornou mais gerenciável.

Ao analisarmos os comentários masculinos em portais, é possível entender por que tantas mulheres desistiram de procurar um parceiro. No entanto, talvez, ao darmos uma chance a novos estereótipos (como exigir homens com altura mínima de 1,83m, por exemplo, pode dificultar as buscas), o amor possa surgir.

E quando isso acontece, é algo verdadeiramente belo.
Você pode expressar sua opinião sobre isso no Instagram.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade