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‘A Hora do Mal’ resgata o medo como uma experiência compartilhada

Os contos de fadas funcionam como um aviso, narrativas assustadoras contadas à beira da cama que, por trás de suas alegorias e metáforas, transmitem uma mensagem clara: o mundo pode ser perigoso, e é sensato desconfiar do que parece fora do comum, evitar os inevitáveis becos sem saída e, talvez o mais crucial, manter sempre os olhos bem abertos.

“A Hora do Mal” pode não ter a didática dos contos tradicionais que apresentam lobos ferozes ou sereias apaixonadas, mas aborda, de maneira semelhante, as repercussões de uma escolha errada. A grande diferença em relação às narrativas infantis que foram suavizadas pelo tempo (e pela Disney) é a crescente tensão que leva ao limite do insuportável, além do medo entrelaçado em um mistério que parece não ter solução — mesmo após a metade do filme, ainda não temos a menor ideia do que realmente está acontecendo.

O ponto de partida é um evento inexplicável. Em uma madrugada qualquer, dezessete crianças saem de suas camas, abrem as portas de suas casas e se entregam à escuridão da noite, desaparecendo para sempre. Todas elas eram alunas da professora Justine Gandy (Julia Garner), que chega à escola como de costume, apenas para encontrar sua sala vazia, exceto pelo tímido Alex (Cary Christopher).

O que se desenrola a seguir é um microcosmo da sociedade contemporânea. A polícia, mesmo após investigações minuciosas, não consegue descobrir o que levou as crianças a abandonarem seus lares — ou para onde elas foram. Justine, que já não era uma pessoa equilibrada, se torna obcecada por respostas. Alex, por sua vez, se torna ainda mais introspectivo. Os pais dos desaparecidos, liderados por Archer Graff (Josh Brolin), sucumbem a uma mentalidade de manada, agindo de forma visceral e agressiva, ignorando os fatos e a lógica.

Esse tabuleiro é montado de maneira brilhante pelo roteirista e diretor Zach Cregger, que chamou a atenção há três anos com o peculiar “Noites Brutais”. Embora a narrativa fosse astuta — dois estranhos que alugam o mesmo airbnb e descobrem que há mais a temer do que passar uma noite com um desconhecido —, o desfecho vulgar reduziu a experiência a mais um “filme de monstros”.

“A Hora do Mal” demonstra que Cregger, ao manter alguns elementos narrativos de seu trabalho anterior, interiorizou as lições corretas. Assim como em “Noites Brutais”, a história explora a sensação de abandono em comunidades afastadas dos grandes centros urbanos, é contada de forma não linear e apresenta múltiplos pontos de vista. Somente no clímax, que troca a atmosfera opressora por uma revelação que surge do nada, o quadro completo se torna claro.

Diferente de alguns de seus contemporâneos mais aclamados, Cregger não busca desenvolver uma ideia complexa ou autoindulgente: tudo neste filme serve à narrativa. Ele também confia no público ao não detalhar a trama em excesso, permitindo que a audiência absorva o mistério e suas implicações sem pressa. Essa abordagem é cada vez mais rara e representa um reencontro bem-vindo com o elemento surpresa.

2025 tem se mostrado um ótimo ano para o terror cinematográfico — de “Pecadores” a “Extermínio: A Evolução”, passando pelos ainda não lançados “Juntos” e “Faça Ela Voltar”, a sensação do medo como uma experiência coletiva continua a deixar as plateias empolgadas. O que distingue as produções medianas das que possuem potencial para perdurar é a profundidade das camadas narrativas, que vão além de um mero festival de sangue.

Mais do que um simples filme de terror, “A Hora do Mal” é uma narrativa que aborda o medo do desconhecido, as consequências de nossas ações e um mundo que se esconde por trás da lógica que preferimos ignorar. É uma reflexão sobre a inocência da infância destruída em um ambiente repleto de predadores. A quebra da normalidade — a súbita fuga de dezessete crianças sem explicação — é a materialização desse temor.

Com um domínio notável sobre narrativa, tom, estrutura e construção de mundo, Zach Cregger amarra cada conceito em uma apresentação elegante. Apesar de sua violência, “A Hora do Mal” não é gráfico além do necessário. O humor mordaz provoca risadas nervosas como uma calmaria antes da tempestade. Julia Garner e Josh Brolin se destacam como âncoras, interagindo com um elenco excepcional que inclui Alden Ehrenreich, Benedict Wong e uma impressionante Amy Madigan.

A recepção positiva a “Noites Brutais” poderia ter criado uma falsa sensação de invencibilidade para Zach Cregger. Em vez de se deixar levar, ele optou por explorar em “A Hora do Mal” ideias desconfortáveis e surpreendentes, sem abrir mão do entretenimento. O resultado é um dos filmes mais gratificantes do ano — tudo isso, curiosamente, sem começar com “era uma vez”.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade