Para iniciar este texto, deixo claro que não sou um entusiasta incondicional da inteligência artificial, mas também não sou um opositor. Estou ciente das diversas questões relacionadas ao consumo energético, ao impacto ambiental e às implicações éticas que a IA levanta. No entanto, percebo que essas preocupações são bastante semelhantes às discussões que surgiram quando a televisão apareceu em comparação ao rádio, ou quando a internet começou a substituir a correspondência. Todos nós estamos aqui, coexistindo. Acredito que, enquanto não abordarmos o consumo energético dos data centers das grandes empresas de tecnologia, que não apenas processam IA, mas também armazenam nossas fotos na nuvem, nossos likes nas redes sociais e nossos matches em aplicativos de relacionamentos, a conversa sobre IA por si só não trará grandes mudanças.
Por isso, tenho refletido bastante sobre a IA como uma ferramenta, ao invés de um fim, como muitos têm abordado. Enquanto executivos de grandes gravadoras se preocupam com a possibilidade de serem substituídos por uma inteligência artificial, um jovem produtor da periferia de São Paulo está criando sucessos que estão ecoando por todo o Brasil, utilizando exatamente essa tecnologia.
É curioso notar como a mesma ferramenta que causa apreensão nos escritórios sofisticados da Faria Lima está, na verdade, democratizando a produção artística nas comunidades do país. Recordo uma época em que produzir música era privilégio de quem tinha acesso a estúdios caros, equipados com mesas de som enormes. Com o surgimento de softwares, qualquer pessoa com um computador passou a criar batidas capazes de competir com grandes produções. Agora, a chegada da inteligência artificial trouxe um avanço extraordinário: é possível compor uma orquestra sinfônica inteira, elaborar arranjos complexos que antes levariam meses para serem feitos, e produzir músicas de qualidade profissional diretamente de um celular.
A equipe da Blow Records compreendeu isso de maneira clara. Enquanto grandes estúdios gastam quantias exorbitantes em equipamentos e executivos se perdem em reuniões sobre “ameaças tecnológicas”, eles simplesmente abraçaram a ferramenta e criaram música. E o resultado foi surpreendente.
Conseguiram produzir um som que, sem esses recursos e altos investimentos, seria impossível de alcançar. Mais importante ainda, criaram uma sonoridade que, provavelmente, a própria IA nunca imaginaria, pois, se a IA apenas repete o que já foi feito, a fusão do funk e do trap contemporâneo com uma produção inspirada em Tim Maia ou Marvin Gaye dos anos 70 e 80 nunca havia sido realizada.
Essa, para mim, é a diferença essencial entre quem possui privilégios e quem não os tem: enxergar a IA como uma ferramenta ou como uma ameaça. Comecei a pensar assim quando, há algumas semanas, falei para jovens da Cidade Tiradentes, na periferia de São Paulo, e, ao perguntar quem estava utilizando IA, praticamente todo o auditório levantou a mão.
Dali pode surgir um novo hit musical, um blockbuster cinematográfico repleto de efeitos especiais, um livro de ficção científica ou, simplesmente, uma ferramenta para estudar para o ENEM e transformar vidas por meio da educação. No topo da pirâmide, há um medo constante de substituição, pois sempre houve pessoas realizando o trabalho por eles. Na base, aqueles que nunca tiveram acesso a nada estão finalmente conseguindo criar sem depender de intermediários.
A mesma tecnologia que assusta aqueles que sempre controlaram os meios de produção está empoderando aqueles que sempre foram excluídos desse processo. Essa dinâmica se assemelha à fotografia digital, que reduziu drasticamente o número de laboratórios caros, mas colocou uma câmera profissional nas mãos de qualquer um. Ou ao YouTube, que quebrou o monopólio da televisão e permitiu que qualquer pessoa se tornasse um produtor de conteúdo. Tudo isso convive, com muitos ainda utilizando a fotografia analógica e comentando novelas em canais do YouTube.
Talvez o problema não resida na inteligência artificial em si, mas na forma como nos relacionamos com ela — e, principalmente, na nossa relação com o poder. Quando você utiliza a IA para substituir pessoas, está agindo de forma restrita e temerosa. Por outro lado, quando a emprega para potencializar a criatividade onde antes não havia espaço, você realmente compreendeu a mensagem da democratização.
A questão, então, não é se a IA vai extinguir nossos empregos, mas sim se a usaremos para concentrar ainda mais poder nas mãos de poucos ou para disseminar oportunidades entre aqueles que sempre estiveram à margem.