O fenômeno começa com “Mortal Kombat”. Quando o icônico jogo de luta, criado por Ed Boon e John Tobias, invadiu os fliperamas em 1992, ele trouxe um elemento que faltava em seu rival direto, “Street Fighter”: uma violência extrema. As “fatalities”, movimentos finais que resultavam em decapitações, mutilações e um exagero de sangue fictício, tornaram a experiência verdadeiramente intensa.
Enquanto as vozes conservadoras se escandalizavam, uma nova geração de adolescentes abraçou essa radicalidade. Era ousado! Era sombrio! Contudo, essa abordagem também era uma brincadeira que ressoava com jovens que se viam em um mundo de adultos. O sucesso de “Mortal Kombat” gerou uma franquia valiosa, que em 2008 se cruzou com o universo da DC Comics.
O jogo “Mortal Kombat vs. DC Universe” lançou heróis e vilões em um combate frenético. Ed Boon, animado com o resultado, sugeriu uma nova ideia que culminou em “Injustice: Gods Among Us”, lançado em 2013. A trama envolvia o Superman se tornando um líder mundial através do medo após uma tragédia. Era ousado! Era sombrio! E o desfecho estava à vista.
Poucos meses após o lançamento de “Injustice”, Zack Snyder apresentou sua visão do Superman em “O Homem de Aço”. A escolha de substituir a essência otimista do herói por uma tonalidade mais sombria não foi aleatória; seguia uma tendência de “desconstruir” ícones sob uma perspectiva mais “realista”. A lógica era clara: em um mundo cada vez mais complexo e desolador, o super-herói ideal deveria trocar a empatia pela agressividade.
Reinterpretar um personagem tão emblemático não é um problema em si, mas uma mudança que o afaste de seus valores fundamentais pede um talento excepcional. Frank Miller, por exemplo, transformou o Superman em um vassalo de um governo corrupto em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, e Alan Moore explorou cenários distópicos em histórias marcantes dos anos 80. Entretanto, Zack Snyder e David Goyer, roteirista de “O Homem de Aço”, não estão à altura de Miller ou Moore.
O maior desafio não seria se essa versão descolorida do Superman fosse um recomeço com começo, meio e fim. Quando “O Homem de Aço” estreou, eu mesmo reconheci suas qualidades e ressaltei alguns pontos negativos – você pode conferir meu texto sobre isso. No entanto, a intenção de Snyder e do estúdio era fazer do filme com Henry Cavill a pedra angular de um novo universo da DC. E assim, a situação começou a desandar.
“Batman v Superman” se revelou uma adaptação de quadrinhos para o cinema sem emoção alguma (como comentei aqui). “Liga da Justiça” enfrentou problemas estruturais tanto em sua versão original de 2017 (que critiquei aqui) quanto no extenso corte de 2021 de Zack Snyder (que também analisei aqui). Todos os filmes padecem do mesmo mal: a incessante busca por cenas impactantes em detrimento de qualquer traço emocional. Enquanto isso, Henry Cavill, como Superman, entrega uma atuação sem carisma, sua expressão dura dominando as cenas. O humor, essencial para humanizar personagens e criar empatia com o público, parece ausente no trabalho de Snyder, que opta por aumentar a destruição em vez de desenvolver a narrativa. Isso não funcionou.
Ainda assim, um grupo de fãs parecia desejar apenas isso: destruição, um Superman apresentado como uma entidade onipotente pairando sobre a humanidade, com Henry Cavill fazendo poses sérias em seu traje musculoso. Qualquer tentativa de desviar desse script era rejeitada por uma minoria barulhenta. Os filmes de Snyder pareciam se encaminhar para a narrativa de “Injustice”, mas com o Homem de Aço se tornando um tirano sob a influência do sombrio Darkseid.
Fora do círculo de adolescentes em busca de pura ação, o público se sentia entediado. Apesar da força indiscutível dos personagens, nenhum dos filmes de Snyder conseguiu se estabelecer como um sucesso absoluto, seja financeiramente ou artisticamente. O beco sem saída de um Superman que não agia como Superman prejudicou os planos do estúdio para expandir seu universo. “Adão Negro”, estrelado por Dwayne Johnson, prometeu uma “nova era” para a DC, mas acabou repetindo os mesmos erros de Snyder, sendo o último prego no caixão.
Com a nomeação de James Gunn como novo responsável por este universo e diretor do próximo “Superman”, uma onda de descontentamento surgiu entre os fãs mais fervorosos online. Ao longo dos anos, acompanhei discussões e páginas dedicadas a exaltar Zack Snyder, Henry Cavill e sua versão do Superman, e encontrei um grupo que detestava profundamente tudo que o herói representa, obcecados por uma representação monótona e sem vida que ninguém deseja ver continuada.
Nas semanas que antecederam a estreia de “Superman”, percebi o conflito entre a frustração e a raiva desse grupo e os fãs dispostos a dar uma nova chance ao personagem. Em vão, tentaram boicotar o novo filme (sabemos que isso nunca funciona). Campanhas para restaurar o “Snyderverso” (improvável de acontecer) e ataques contra Jason Momoa (por seu papel em “Supergirl” como o caçador de recompensas Lobo, sendo considerado um “traidor”) surgiram. Um verdadeiro descontentamento.
Certamente, a psicologia pode explicar essa mobilização em torno de “causas” inatingíveis. Contudo, na prática, os efeitos são nulos. Neste momento em que escrevo, “Superman” se aproxima de uma estreia triunfante, marcando o início de uma nova fase para a DC e enterrando de vez a ilusão de que filmes que ninguém deseja reviver possam retornar.
Zack Snyder, que até gravou um segmento da animação “Rick and Morty” ao lado de James Gunn, já seguiu em frente – mesmo que seus projetos, “Army of the Dead” e “Rebel Moon”, não tenham alcançado o sucesso esperado. Isso não mudará a convicção de seus fãs, que se apegam à esperança vazia de um dia ver seu Superman “sombrio e maduro” de volta. Mas como um amigo me lembrou: se todos esses filmes têm bonecos à venda nas lojas, eles são, em essência, para crianças!