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“Petra Costa analisa: ‘A união entre religião e política prejudica a fé’ em seu novo documentário”

Em uma cena impactante de “Apocalipse nos Trópicos”, Petra Costa questiona um entrevistado sobre o futuro da democracia no Brasil. Ele responde que o país está passando por um “novo momento”. Segundo ele, “as pessoas não compreendem a situação atual porque a luta não é contra indivíduos, mas sim uma guerra espiritual. Jesus entrou em cena. Em nome do Senhor Jesus, a vitória. A vitória.” O entrevistado é o deputado e pastor Cabo Daciolo, que, em 2016, durante as filmagens de “Democracia em Vertigem”, já ungiu os parlamentares do Congresso Nacional, apoiado por fiéis. Ao final da entrevista, Daciolo presenteia Petra com uma Bíblia.

Atualmente, estamos diante de um cenário inédito, que por um longo período passou despercebido por grande parte da sociedade, incluindo cientistas políticos, historiadores e jornalistas. Nos últimos 40 anos, a população evangélica no Brasil saltou de 5% para 30%, juntamente com um aumento significativo de evangélicos em cargos políticos em diferentes esferas do governo.

Que transformação histórica é essa? Quando e como começou? E, mais importante, para onde esse caminho nos levará? Essas são as questões que Petra, indicada ao Oscar por “Democracia em Vertigem”, busca investigar em seu novo longa-metragem, que teve sua estreia mundial no Festival de Veneza em setembro de 2024.

Após quase um ano de espera, o filme finalmente chega às salas de cinema, pronto para ser discutido pelo público, seja ele religioso ou não. Nesse intervalo, Donald Trump foi eleito, levantando questionamentos sobre a separação entre Estado e Igreja nos Estados Unidos, influenciando, como é comum, outros países, incluindo o Brasil, a desafiar um dos fundamentos da República: a laicidade do Estado. O filme chega em um momento crítico, à medida que se desenham as cartas para as eleições de 2026.

“Essa é a percepção que tive também. Fiz algumas pequenas alterações no filme após Veneza, especialmente na segunda metade. Quando assisti em março deste ano, fiquei arrepiada, pois, após a eleição de Trump e a crise política no Brasil, o filme pareceu ainda mais atual e até profético em certos aspectos”, refletiu a cineasta em entrevista ao Splash, acompanhada pela produtora e co-roteirista do filme, Alessandra Orofino.

Ao explorar a conexão entre política, poder e a interpretação do Apocalipse por evangélicos, Petra se depara com um tema delicado e crucial. Como documentar esse fenômeno sem generalizar ou ser vista como crítica à fé dos evangélicos? Sua coragem em se abrir para esse universo e ouvir diferentes vozes é notável. Em um país onde se diz que “política, futebol e religião” não se discutem, como abordar um movimento que cada vez mais une fé e poder?

“Com a ascensão de líderes evangélicos na política e o crescimento do evangelicalismo no Brasil, houve duas posturas predominantes nas últimas décadas: a crítica e a tentativa de evitar a discussão, alegando que religião é um assunto íntimo. No entanto, quando a religião impacta a política de forma a comprometer a separação entre Igreja e Estado, isso afeta a todos nós”, observa a diretora.

Como cidadã e cineasta, Petra tem plena legitimidade para tratar do tema. E, conforme ela mesma destaca, é essencial discutir, afinal, “é um livro aberto a interpretações”. “Por que chegamos a uma interpretação tão fundamentalista do Apocalipse, tão distinta de outras possíveis? Se não falamos sobre isso, talvez percebamos tarde demais a gravidade de um assunto que nos diz respeito”, completa.

Petra, em sua narrativa em off, revela que, para realizar “Apocalipse nos Trópicos”, percebeu que sua formação laica pouco a ensinou sobre a história da fé cristã, especialmente a evangélica, a Bíblia e o Apocalipse. Por essa razão, sentiu a necessidade de estudar esse universo sob uma perspectiva não apenas religiosa, mas também histórica e sociopolítica. O filme apresenta depoimentos de figuras como Daciolo, Silas Malafaia, Jair Bolsonaro e Lula, além de explorar diversas interpretações do Apocalipse por correntes filosóficas e religiosas, incluindo as americanas, dentro do contexto histórico brasileiro.

O cenário atual no Brasil é notável, pois, como Daciolo afirmou, estamos vivendo um “novo momento” nas eleições de 2018, onde Jair Bolsonaro, ao se aproximar da religião de sua esposa, Michele, começou a enfatizar seu segundo nome, Messias, tornando-se o candidato que Malafaia, que anteriormente já havia apoiado políticos como Lula e Aécio Neves, poderia chamar de seu.

Diante do que Petra decidiu explorar — “uma das mudanças religiosas mais rápidas da história da humanidade”, onde a religião, baseada na fé e generosidade de seus fiéis, está sendo moldada por líderes para se tornar uma força política sem precedentes — acompanhar um dos principais protagonistas desse fenômeno se mostrou estratégico.

A narrativa de Petra é dividida em capítulos, começando por “O Influenciador”, onde ela apresenta Silas Malafaia em um culto, onde jovens defendem uma bandeira “anti-feminista”. Ele observa que “até cerca de 15 anos atrás, pastores não falavam de política”, mas que o povo de Deus deve se envolver com as questões mundanas, incluindo a política.

“Apocalipse nos Trópicos” surge da intersecção entre fé e poder. Petra, Orofino e a equipe do filme não pretendem cobrir o universo evangélico em sua totalidade, nem sua diversidade. “Mas vamos focar exatamente na interseção entre poder e fé, nas lideranças religiosas que se tornam políticas ou influenciam decisões políticas, e vice-versa”, afirma Orofino.

Para a produtora e roteirista, o foco é bem específico, e a questão do poder é central: “Qual é a origem do poder? Como ele é exercido? Em nome de quem? Nossa curiosidade começou com o impacto da fé na política, mas à medida que fomos entrevistando pessoas e aprofundando o material, nos interessamos também pelo inverso”.

Uma grande particularidade de “Apocalipse nos Trópicos” é que, embora pareça investigar como a religião influencia a política, a discussão central é como o uso da religião como ferramenta de poder pode afetar sua essência.

“E isso é uma discussão que existe desde a origem do Estado laico. John Locke, o ‘pai do liberalismo’, já dizia que a mistura de religião e política corrompe a própria fé”, alerta Petra, ressaltando que “Apocalipse nos Trópicos” deve ser assistido e debatido, especialmente por aqueles que são religiosos, com a calma e o senso crítico necessários para discutir quem realmente se beneficia da crescente proximidade entre fé e poder em todo o mundo.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade