É possível que um mesmo fenômeno se repita. Essa é a esperança dos criadores de “Stick”, uma série que alterna entre drama e comédia, com a ambição de fazer pelo golfe o que “Ted Lasso” fez pelo futebol: utilizar o esporte como um cenário para uma narrativa complexa sobre relacionamentos humanos. Embora ainda seja cedo para afirmar que estamos diante de um novo ícone cultural, o projeto liderado por Owen Wilson parece estar seguindo o caminho certo.
O ator, que recentemente se destacou na plataforma de streaming ao interpretar um dos protagonistas de “Loki” da Marvel, assume aqui um papel mais comum. Ele vive Pryce Cahill, um ex-estrela do golfe cuja carreira desmoronou após uma tragédia pessoal que resultou em um acesso de raiva durante um campeonato. À beira de perder sua casa, que sua ex-esposa decidiu vender, Pryce encontra uma oportunidade de redenção ao se deparar com um jovem prodígio do esporte.
“Eu aprecio a ideia de que todos merecem uma nova chance”, revela Wilson, que vê no golfe uma metáfora poderosa para dilemas reais. “Pryce sente que a vida tem uma dívida conosco em troca das nossas dificuldades”, ele explica. “Na verdade, a vida não nos deve nada, mas é assim que ele se sente em relação ao golfe, um jogo que muitas vezes nos exige tudo até que, em algum momento, parece nos retribuir.”
Esse “retorno” se manifesta no encontro de Pryce com Santi (Peter Dager), um adolescente com talento excepcional para o golfe. Inicialmente, Pryce vê Santi como uma oportunidade de ouro, mas conforme a amizade se aprofunda, ele se vê obrigado a confrontar seus próprios sentimentos. “Ele percebe a vida como uma sequência de jogadas ruins que nos fazem questionar todo o esforço que investimos em nosso desenvolvimento”, reflete. “Nos esforçamos, e no fim, nos perguntamos se realmente vale a pena, e eu me identifiquei com isso.”
“Stick” rapidamente evolui de um simples acordo entre dois indivíduos para uma jornada repleta de personagens – além de Pryce e Santi, também se juntam a eles Elena (Mariana Treviño), mãe do jovem; Mitts (o comediante Marc Maron), amigo e ex-caddy de Pryce; e Zero (Lilly Kay), uma bartender que se relaciona com Santi. “Nos tornamos uma família disfuncional”, explica Wilson. “Vivemos momentos alegres e, quando as coisas ficam difíceis, precisamos aprender a nos apoiar mutuamente.”
O drama e a comédia que permeiam a história são ambientados no universo do golfe – um esporte que, convenhamos, não possui nem de longe a popularidade do futebol. “O golfe é uma modalidade singular, pois nosso primeiro adversário no campo somos nós mesmos”, justifica o produtor Jason Keller, que encontrou na AppleTV o parceiro ideal para dar vida a “Stick”, uma criação original que estava guardada.
O golfe não é boxe
“Ao meu ver, a concentração absoluta exigida de um golfista é fascinante”, continua Keller. “Em nossa narrativa, cada personagem carrega suas próprias bagagens emocionais, e mesmo que nem todos estejam no campo, as adversidades permanecem as mesmas.” Owen Wilson, que também atua como produtor executivo da série, destaca que a energia dos aficionados pelo esporte enriquece a narrativa: “Mesmo quando não conheço algo a fundo, me deixo contagiar pela paixão de quem já está imerso nisso.”
O desafio de “Stick” foi transformar o golfe, um esporte que pode ser contemplativo, em uma experiência visual dinâmica e emocionante. “O golfe não se assemelha ao boxe ou ao tênis”, elucida Jason Keller, mencionando clássicos esportivos como “O Touro Indomável” e o recente “Rivais”. “Há uma poesia no movimento desses esportes que o golfe simplesmente não possui”, acrescenta: “É uma bola branca perdida em uma vasta extensão verde.”
Keller atribui aos diretores o mérito de capturar na tela a sensação, por vezes intensa, que o esporte proporciona. “Valerie Ferris e Jonathan Dayton dedicaram meses para descobrir como tornar o jogo envolvente e emocionante”, enfatiza. “Os diretores que os sucederam, como David Dobkin e Jaffar Mahmood, aprimoraram essa abordagem, transformando-a em uma experiência cinematográfica.” Quando “Stick” chega aos seus dois episódios finais, assinados por John Hamburg, a série se aprofunda no jogo, com todos os elementos funcionando em perfeita harmonia.
O medo como motivação
Esse “treinamento” também se aplicou a Owen Wilson, não apenas para dominar um esporte que não faz parte de sua rotina, mas também para encontrar o equilíbrio entre drama e comédia. O ator menciona que o formato narrativo mais extenso da série contribuiu para sua imersão nos conflitos de Pryce Cahill. “Eu gostei de fazer ‘Loki’ porque me proporcionou mais tempo com o personagem”, recorda. “Interpretar bons papéis nunca me cansa, é como um livro que você não quer que acabe.”
“Eu tenho receio de parecer forçado em meu trabalho. Esse medo me mantém alerta.” Ele se recorda da insegurança que sentiu ao fazer a comédia “Zoolander”, onde assumiu uma postura corporal que não refletia sua personalidade: “Em situações assim, posso sentir insegurança, enquanto em outras, sinto mais controle.”
“Stick” ofereceu a ele a chance – e o tempo – de explorar um protagonista de maneira mais profunda. “Sair da zona de conforto pode ser benéfico e estimulante”, conclui. “Gosto de não ter certezas, de estar aberto a todas as possibilidades e de me perder com as pessoas certas.”