O longa-metragem “Manas”, atualmente em exibição nos cinemas, desenvolveu um protocolo específico para a gravação de cenas que retratam a violência sexual, visando a proteção da atriz mirim Jamilli Correa, que na época tinha apenas 13 anos. A produção optou por uma representação simbólica da violência infantil na região do Marajó, no Pará.
A diretora Mariana Brennand compartilhou que a atriz só compreendeu a profundidade de sua personagem após assistir ao filme pronto. “O elenco infantil não teve acesso ao roteiro completo. Eu guiei Jamilli através de simbolismos — mencionando apenas ‘esta é a cena da caçada’, sem nunca abordar o abuso de forma direta”, contou em uma entrevista ao Splash.
A produção implementou protocolos rigorosos para garantir a segurança emocional da jovem atriz. Todas as cenas de violência foram retratadas de maneira implícita, evitando qualquer representação gráfica. O processo criativo incluiu atividades lúdicas que promoviam um ambiente leve e acolhedor. Os pais das crianças foram devidamente informados sobre o conteúdo delicado, enquanto o roteiro completo foi mantido restrito aos adultos envolvidos na produção.
Um dos personagens que vivencia essas situações é Marcílio, pai de Marcielle, interpretado por Rômulo Braga. Ele mencionou que os adultos concordaram em não ensaiar cenas de violência explícita. “Queríamos estabelecer a confiança das crianças em primeiro lugar. No dia da gravação da cena em que o pai agride a filha, realizamos testes gradativos — começando com um toque leve no braço dela, aumentando a intensidade e sempre perguntando se estava tudo bem”, explicou.
Rômulo destacou o desafio de interpretar um pai abusador. “Ele se apresenta como um pai carismático, alguém que você acaba simpatizando — e essa é uma realidade que se reflete na vida real. O abuso frequentemente vem de quem mais confiamos.”
É crucial discutirmos essas dinâmicas familiares tóxicas que normalizam a troca de carinho por objetos, como doces por afeto, pois isso marca o início do ciclo de abuso, enfatizou Rômulo Braga.
A atriz Jamilli Correa, agora com 16 anos, também compartilhou suas reflexões sobre o processo. “Eu encarei tudo como um jogo. Somente ao assistir ao filme finalizado é que compreendi a história e questionei sobre a cena do abuso.”
Outro aspecto importante foi que a jovem atriz não sabia que era a protagonista central da narrativa. “Isso trouxe leveza à produção — uma criança de 13 anos não deveria carregar esse peso”, explicou Mariana Brennand.
Questão política
A diretora mergulhou em quatro anos de pesquisa, acompanhando o trabalho da Irmã Marie Henriqueta e do delegado Rodrigo Amorim, que são fundamentais na luta contra a exploração de menores na região do Marajó. O filme também critica o uso político de desinformações sobre a exploração infantil na área. “A violência contra mulheres precisa ser discutida na esfera política, mas deve ser tratada de forma apartidária”, alertou Brennand, ressaltando a importância de abordar essa questão com responsabilidade.
Em 2022, a então Ministra de Direitos Humanos no governo Jair Bolsonaro, Damares Alves, mencionou um suposto esquema de exploração sexual de meninas para justificar ações no arquipélago do Marajó. “Há cerca de 20 anos, me deparei com as primeiras denúncias de tráfico e exploração de crianças no Marajó, que se tornaram recorrentes desde então”, escreveu a ministra em um documento oficial do programa Abrace o Marajó, lançado em 2020 e revogado em 2023.
Damares fez afirmações infundadas sobre a exploração sexual de meninas no Marajó, alegando que elas eram sequestradas e que seus dentes eram arrancados para evitar mordidas durante o sexo oral. Segundo uma matéria exclusiva do UOL Prime, Damares Alves utilizou desinformação para beneficiar igrejas evangélicas na região.
Transformação
Para Jamilli, a vivência foi libertadora. “Foi um processo transformador, especialmente no final. Minha personagem consegue se libertar dos abusos e retornar à infância.” A diretora concluiu com um apelo: “Desejo que todas as vítimas se sintam representadas e acolhidas por esta narrativa. Que cada espectador reflita sobre nossa sociedade.”
“Espero que as mulheres saiam do cinema motivadas a romper silêncios”, finalizou a diretora. Com 20 prêmios internacionais conquistados antes mesmo de sua estreia nacional, “Manas” já está em exibição nos cinemas.