Contradições, ironia mordaz e uma criatividade desmedida. O documentário “Rita Lee: Mania de Você”, que já pode ser assistido na MAX, traz à tona detalhes intrigantes da trajetória pessoal e profissional da icônica figura do rock brasileiro.
Mais do que apenas uma artista brilhante, a produção humaniza Rita, evidenciando como ela converteu suas dores em letras eternas, demonstrando que sua genialidade transcende o rock, abordando temas como resistência, liberdade e um amor profundo pela vida. A seguir, o Splash compartilha algumas das revelações surpreendentes do filme.
Sem Temor da Morte
As filmagens do documentário começaram apenas quatro semanas antes do falecimento de Rita, que ocorreu em 8 de maio de 2023, aos 75 anos, em decorrência de um câncer pulmonar. A melancolia que poderia cercar sua partida é suavizada por um áudio inédito da artista, onde ela expressa sua visão sobre a morte: “Morte não é castigo, é voltar para casa”.
Nunca Desejou Ser Cantora
Em uma “entrevista” conduzida por sua neta, Izabella Lee, Rita revela que nunca teve o sonho de ser cantora. Durante essa conversa, ela compartilha que seu pai desaprovava sua escolha profissional e só passou a valorizar sua carreira quando a música “Ovelha Negra” começou a tocar nas rádios em 1975. “Ele achava que, a qualquer momento, eu deixaria de lado o hobby musical e seguiria a odontologia”, conta Rita.
O documentário inclui depoimentos de pessoas influentes sobre a canção. Roberto de Carvalho, seu marido, acredita que “‘Ovelha Negra’ é uma representação fiel de Rita”, enquanto Gilberto Gil descreve a música como “profética”.
Uma Carta Inédita
Uma emocionante revelação é uma carta inédita, escrita por Rita pouco antes de falecer, destinada a Roberto de Carvalho e seus filhos: Beto, João e Antônio Lee. Durante o documentário, Roberto e Beto leem a carta em voz alta, provocando lágrimas em todos os presentes. Além disso, outra carta é lida, escrita por Rita enquanto estava presa em 1976, grávida de Beto Lee, por suposto porte de maconha. Nela, a cantora diz a Roberto que ele pode seguir com sua vida, reconhecendo que, naquele momento, não poderia ser a “esposa ideal”. O companheiro se emociona ao ler, sentindo uma forte conexão entre o passado e o presente, pois se trata também de uma despedida.
“Coisas da Vida” é uma Favorita
“Rita Lee: Mania de Você” explora o vínculo da cantora com o álbum “Entradas e Bandeiras”, lançado em 1976 pela banda Tutti Frutti, da qual Rita fazia parte na época. Após uma viagem à Europa durante a mixagem do disco, ela voltou insatisfeita com o resultado. Em um autógrafo para o jornalista Guilherme Samora —conhecido por ser o “fantasminha” da autobiografia de Rita— ela afirma: “‘Coisas da Vida’ eu gosto”, deixando claro seu descontentamento com o restante do álbum. A canção foi composta por Rita ao piano quando soube da doença de sua mãe, que tinha câncer de pulmão, e, segundo Roberto de Carvalho, a artista tinha grande orgulho dela.
Acervo Familiar
A produção revela várias intimidades da vida de Rita Lee, apresentando vídeos e fotos inéditas do acervo familiar. Os filhos compartilham suas experiências ao crescer em uma casa com pais artistas, refletindo sobre as diferenças em relação aos amigos, mas reconhecendo que, apesar dos contrastes, eram pessoas que faziam sacrifícios pela família.
O Lança-Perfume
Sobre um dos maiores sucessos de Rita, “Lança Perfume” (1980), o documentário menciona que sua criação já indicava que se tornaria um hit. Contudo, devido à censura da ditadura brasileira, a canção foi proibida. Guilherme Samora lê um trecho do documento que vetou a música, alegando que a expressão “me deixa de 4 no ato” sugeria um duplo sentido. “Qual seria o duplo sentido? Não tem”, provoca ele com humor.
Em um vídeo de arquivo, Rita recorda que seu pai, um fervoroso corintiano, celebrava os gols do time e “liberava o lança-perfume” em casa, referindo-se à droga inalante que era introduzida no organismo por aspiração.