A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio de sua unidade Mata Atlântica (FMA), promoveu nesta semana a sexta edição da Festa Carioca das Sementes Agroecológicas, evento realizado em comemoração ao Dia Mundial da Alimentação. A iniciativa integra o calendário da Semana da Alimentação Carioca, promovida pelo Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do Município do Rio de Janeiro (Consea Rio), que há 16 anos realiza ações voltadas à promoção da segurança alimentar na cidade.
A edição deste ano teve como tema central “Mulheres na agricultura: saberes que alimentam”, destacando a importância do protagonismo feminino na preservação, multiplicação e transmissão de sementes. A proposta visa reconhecer o papel fundamental das mulheres na manutenção da agrobiodiversidade, na organização de redes de troca de sementes e na sustentação de práticas tradicionais que contribuem para a soberania alimentar local. A temática também reforça a necessidade de garantir às mulheres o acesso à terra, recursos e políticas públicas que assegurem autonomia econômica, reconhecimento social e condições dignas para o exercício de suas atividades.
O evento contou com a parceria de diversas instituições ligadas à cadeia da agricultura familiar do Rio de Janeiro, incluindo a Rede Carioca de Agricultura Urbana (CAU), a ASPTA Agricultura Familiar e Agroecologia, o Instituto Municipal de Assistência Social Museu Bispo do Rosário, a Fundação Angélica Goulart, além de organizações como Capina, Permalab, Coletivo Martha Trindade, Centro de Integração Serra da Misericórdia (CEM), Associação de Agricultores Orgânicos da Vargem Grande, Amigos Feira Campo Grande e Coletivo Tudo Numa Coisa Só.
Durante a abertura do evento, a coordenadora-adjunta da Fiocruz Mata Atlântica, Andrea Vanini, destacou a relevância do tema ao enfatizar a história das mulheres que atuam na agricultura e na conservação de sementes, muitas vezes sem o devido reconhecimento. Ela ressaltou que essas mulheres conhecem profundamente os ciclos naturais, preservam práticas tradicionais e transmitem conhecimentos de geração em geração, desempenhando papel vital na construção de uma agroecologia que valoriza o trabalho coletivo, a solidariedade e a preservação de variedades tradicionais de plantas. Vanini afirmou ainda que a participação feminina é imprescindível para a soberania alimentar e que o fortalecimento de seu protagonismo é fundamental para garantir o direito à terra, ao acesso a recursos, à autonomia e à participação nas decisões relacionadas à produção de alimentos.
A abertura contou também com a fala de Julio Mendes, representante do Consea Rio, que reforçou o apoio do conselho à iniciativa, destacando a importância da Festa das Sementes Agroecológicas como parte das ações do calendário da Semana de Alimentação Carioca. Mendes destacou que o evento está alinhado com a missão do conselho de promover a segurança alimentar e o direito humano à alimentação adequada na cidade.
Bernadete Montezano, representando a Rede CAU, também participou da abertura, enfatizando que “semente é vida” e ressaltando a importância de valorizar o conhecimento ancestral, a troca de sementes crioulas e a preservação da biodiversidade como estratégias essenciais para a segurança e soberania alimentar.
A Festa Carioca das Sementes Agroecológicas é uma iniciativa voltada ao intercâmbio de sementes produzidas por agricultores urbanos e periurbanos, especialmente no entorno da Floresta da Pedra Branca e Serra da Misericórdia. As sementes trocadas incluem variedades de abóbora, pimentas, milho (amarelo, branco e pipoca), fava, diversos tipos de feijão (preto, guandu, caupi, xodó, vagem), além de quiabo, tomate, ramas de aipim, batata-doce e plantas medicinais. A atividade reforça a importância da preservação da agrobiodiversidade e do conhecimento tradicional na promoção de uma alimentação mais saudável e sustentável.
Segundo Claudemar Mattos, do Escritório Técnico de Agroecologia, Segurança, Soberania Alimentar e Economia Solidária da Fiocruz Mata Atlântica, é urgente que os territórios cariocas, vulneráveis às mudanças climáticas, adotem ações que minimizem perdas na biodiversidade agrícola. A estratégia inclui a implementação da Casa Mãe de Sementes, instalada no Laboratório de Sementes em parceria com o Escritório Técnico de Conservação e Gestão da Restauração Ecológica, com o objetivo de armazenar, conservar e distribuir sementes agroecológicas preservando suas qualidades genéticas e sanitárias. Essa iniciativa visa fortalecer os guardiões de sementes, promover intercâmbios de conhecimentos e apoiar a produção sustentável, contribuindo para a saúde, soberania alimentar e o fortalecimento das comunidades locais. A atuação abrange ainda ações de assessoria sociotécnica, compostagem, tecnologias sociais de saneamento, mercados locais e incidência em políticas públicas, buscando construir sistemas alimentares mais resilientes frente aos desafios atuais, como as mudanças climáticas e o crescimento populacional.