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Observatório dos Sistemas de Saúde do Brics amplia análise sobre políticas e estruturas de saúde no bloco

Um novo observatório dedicado ao estudo dos sistemas de saúde dos países do Brics foi lançado com o objetivo de produzir, sistematizar, analisar e disseminar dados sobre as políticas e estruturas de saúde do bloco, que reúne aproximadamente metade da população mundial. A iniciativa busca preencher lacunas de informações essenciais para fortalecer o acesso universal e promover a equidade em saúde nos países integrantes, além de contribuir para o entendimento das dinâmicas de governança global e da cooperação Sul-Sul. Desenvolvido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Observatório dos Sistemas de Saúde do Brics foi apresentado durante o seminário ObservaBrics: fortalecendo sistemas universais e a cooperação Sul-Sul em saúde.

Segundo Adelyne Mendes Pereira, coordenadora do projeto e pesquisadora do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), a iniciativa surge em um contexto internacional marcado por crises sanitárias, impactos ambientais e desigualdades socioeconômicas crescentes, que tornam a compreensão dos sistemas públicos de saúde uma exigência estratégica para as nações em desenvolvimento. O projeto conta com apoio institucional e financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Programa de Fomento ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico Aplicado à Saúde Pública da Ensp/Fiocruz.

O trabalho do observatório é realizado por uma equipe colaborativa composta por pesquisadores de diversas instituições acadêmicas do Brasil e de outros países, operando em uma rede interinstitucional. Entre as atividades estão a elaboração de projetos de pesquisa conjuntos, seminários, grupos de trabalho temáticos e a publicação colaborativa de relatórios e artigos científicos. Adelyne Mendes Pereira destaca a intenção de ampliar essas parcerias com novas instituições dos países do Brics, fortalecendo o intercâmbio de conhecimentos.

A estrutura do ObservaBrics está organizada em quatro eixos principais: mapeamento e monitoramento, produção de evidências científicas, disseminação de informações e estímulo ao debate público. As pesquisas desenvolvidas se dividem em quatro linhas de investigação: a primeira analisa fatores econômicos, geopolíticos e sociais que explicam desigualdades em saúde no Sul Global; a segunda acompanha as políticas e sistemas de saúde dos países do bloco, considerando as relações internacionais e as realidades locais; a terceira avalia a capacidade de resposta dos sistemas de saúde a emergências, aprendendo com os efeitos da pandemia de Covid-19; e a quarta aborda o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, buscando ampliar a produção de tecnologias e insumos nos próprios países, reduzindo a dependência de importações e fortalecendo a capacidade tecnológica nacional.

Para garantir comparabilidade entre diferentes contextos, a equipe do observatório validou e organizou mais de uma centena de indicadores internacionais padronizados, utilizando métodos que combinam revisão bibliográfica, análise documental e processamento de dados secundários. Essa metodologia permite a comparação de países com grandes diferenças continentais e demográficas, como Brasil, Índia e China, sob métricas equivalentes, assegurando rigor técnico às análises.

Todo o conteúdo gerado pelo ObservaBrics será disponibilizado em um portal online de acesso gratuito, com linguagem acessível a pesquisadores, gestores públicos, profissionais de saúde e sociedade civil. O site reúne painéis interativos de dados, que possibilitam consultas detalhadas por país e comparações entre os integrantes do bloco, abrangendo categorias como demografia, desigualdades, ambiente, desastres, proteção social, infraestrutura e indicadores de saúde, como imunização, mortalidade e morbidade. Os recursos também incluem gráficos dinâmicos, fichas técnicas e bases de dados completas para download, facilitando pesquisas e elaboração de relatórios.

Além disso, o portal disponibilizará publicações acadêmicas, notícias, webinários e boletins informativos, além de séries educativas para inscritos. As redes sociais do projeto também serão utilizadas para divulgar resumos e promover maior aproximação entre a comunidade científica e o público em geral.

Adelyne Mendes Pereira reforça que atualmente o acesso a indicadores e análises sobre os sistemas de saúde dos países do Brics é disperso e fragmentado, dificultando uma compreensão integrada e comparativa. O observatório pretende preencher essa lacuna ao oferecer uma plataforma que acompanha, de forma padronizada e longitudinal, os principais determinantes sociais, econômicos e sanitários, permitindo a análise de como fatores como mercado de trabalho, gastos públicos, desastres ambientais e políticas de proteção social influenciam indicadores de saúde, como mortalidade e imunização.

A especialista destaca ainda o potencial do bloco do Brics, cuja diversidade de capacidades operacionais, tecnológicas e assistenciais pode representar uma força para a cooperação Sul-Sul. Países como Brasil, Rússia, Índia e China possuem características distintas que, juntas, oferecem possibilidades de ações conjuntas, como compras governamentais integradas, transferência de tecnologia e fortalecimento da soberania sanitária e tecnológica. O Brasil se destaca pela cobertura universal do Sistema Único de Saúde (SUS) e a abordagem territorial, enquanto a Rússia possui uma infraestrutura estatal robusta herdada do modelo Semashko, a Índia é referência na produção de medicamentos, e a China detém um complexo industrial avançado e capacidade de inovação na saúde digital.

Por fim, o observatório tem a expectativa de contribuir para a formulação de políticas públicas mais embasadas, utilizando as evidências geradas para orientar decisões que promovam o fortalecimento dos sistemas de saúde públicos, a democratização do acesso a tecnologias em saúde e uma distribuição mais equitativa de recursos. Assim, o projeto busca consolidar-se como um centro de produção de dados e análises que possa unir pesquisadores, gestores e sociedade civil, promovendo o direito à saúde e a resiliência dos sistemas no contexto do Sul Global.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade