Um estudo recente publicado na revista Scientometrics revela que o papel do Brasil na ciência global varia significativamente dependendo do tipo de colaboração internacional em que está envolvido. A pesquisa, que analisou uma década de atividades científicas entre 2010 e 2019, destaca que o país assume posições distintas de liderança e impacto de acordo com os modelos de cooperação adotados, sendo eles Norte–Sul, Sul–Sul e triangular.
Conduzido por uma equipe de pesquisadores liderada pela professora Bruna de Paula Fonseca, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), o estudo envolveu a análise de mais de 360 mil publicações na área de Ciências da Vida e da Saúde. Os autores, incluindo Juliana Freitas, Priscila Costa Albuquerque e Fabio Zicker do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS)/Fiocruz, além de Eric Araújo, da Universidade Calvin, no Michigan (EUA), buscaram compreender como o Brasil lidera, impacta e se especializa em diferentes arranjos de cooperação internacional.
O levantamento mostrou que o crescimento da colaboração internacional brasileira foi expressivo ao longo do período, atingindo um aumento de 71%. Destacou-se, especialmente, o crescimento nas parcerias do tipo triangular, que mais que triplicaram, com um índice de crescimento de 3,08 vezes. Essas colaborações, que envolvem o Brasil, países de alta renda e países de baixa e média renda, apresentaram o maior impacto de citações, com 50,4% dos artigos entre os 10% mais citados, superando as colaborações Norte–Sul (36,0%) e Sul–Sul (23,2%).
A análise também revelou que a liderança do Brasil varia conforme o modelo de colaboração. O país exerceu maior protagonismo nas parcerias Sul–Sul, onde esteve presente em 75% dos casos, e também manteve uma presença considerável nas colaborações Norte–Sul, com 67%. No entanto, essa liderança caiu para 31% nas parcerias triangulares, indicando uma participação mais distribuída entre os países envolvidos.
Além dos aspectos quantitativos, o estudo destacou diferenças temáticas entre os modelos de colaboração. Nas parcerias Sul–Sul, o Brasil concentra-se em áreas em que possui forte especialização, como ecologia, agricultura e veterinária. Já nas colaborações triangulares, há uma forte ênfase em epidemiologia e ensaios clínicos, refletindo uma orientação mais voltada para temas de saúde pública e inovação clínica.
Os autores do estudo ressaltam que a principal provocação do trabalho é compreender que o papel do Brasil na ciência global não é simplesmente central ou periférico, mas depende do contexto específico de cada arranjo de cooperação. Assim, o país exerce liderança em alguns modelos, enquanto pode perder espaço de influência em outros, evidenciando a complexidade das redes de pesquisa internacionais.
Outra questão levantada pelo estudo refere-se à adequação dos indicadores utilizados para avaliar a posição de um país na ciência mundial. Os autores questionam se os métodos tradicionais de mensuração, que muitas vezes utilizam indicadores agregados de impacto e internacionalização, são capazes de captar de forma precisa o papel do Brasil nas redes globais de pesquisa.
O estudo completo está disponível no site da revista Scientometrics e oferece uma reflexão importante sobre a avaliação da ciência brasileira e sua inserção no cenário internacional, mostrando que a dinâmica de colaboração é multifacetada e altamente dependente do contexto específico de cada modelo de parceria.