** A cena inicial pode parecer trivial: duas amigas, Gerluce (Sophie Charlotte) e Viviane (Gabriela Loran), trocam confidências sobre suas angústias. Gerluce expressa sua preocupação com a possibilidade de sua filha adolescente, Joélly (interpretada de forma brilhante por Alana Cabral), estar grávida. Enquanto isso, Viviane menciona a deterioração da saúde de uma vizinha que, mesmo em tratamento, só apresenta pioras.
Em menos de dois minutos, Aguinaldo Silva estabelece, de maneira fluida, os dois principais eixos narrativos de “Três Graças”: os desafios da gravidez na adolescência e os perigos da falsificação de medicamentos na sociedade. Embora os dramas pareçam desconectados à primeira vista, ambos questionam o valor da vida, um tema central da novela.
Esse é apenas um dos muitos acertos que marcaram a estreia de “Três Graças”, que se mostrou excepcional desde o primeiro capítulo. Em pouco mais de uma hora, a trama apresentou seus protagonistas e os possíveis desdobramentos de seus conflitos, tudo de forma orgânica, ressaltando o melodrama sem cair no pieguismo e fazendo uma crítica social sem a militância superficial e o didatismo que frequentemente permeiam as redes sociais e deterioram algumas produções audiovisuais. Um exemplo notável é quando Gerluce sugere a Joélly que observe a fila do hospital, onde nenhuma mulher grávida está acompanhada de seu parceiro.
A carga dramática, que poderia se tornar opressora, foi suavizada pela presença de Arminda (Grazi Massafera), a vilã ácida e irreverente da trama. Sua personagem funcionou como um contraponto eficaz, trazendo leveza e humor à estreia de “Três Graças”. Por sua vez, o policial Paulinho (Rômulo Estrela) introduziu um toque de romance à narrativa. Aguinaldo Silva sabiamente evitou o clichê do amor à primeira vista, sugerindo apenas que Paulinho e Gerluce desenvolverão uma relação intensa, fundamentada em uma construção crível, e não em um artifício narrativo.
Outro destaque do primeiro capítulo foi a habilidade em instigar a curiosidade do público com mistérios que permeiam a história, prometendo reviravoltas intrigantes. À medida que a trama se desenrola, informações como a identidade do pai de Joélly e o que ocorreu com o marido de Arminda são reveladas de forma quase casual.
É importante ressaltar também a direção precisa de Luiz Henrique Rios e sua equipe, que trouxeram dinamismo e criatividade às cenas, algo que há tempos não víamos nas noites da Globo.
Com uma narrativa bem estruturada e um elenco talentoso, “Três Graças” tem tudo para se tornar um grande sucesso. A trama cumpriu o que a emissora prometeu durante a divulgação: um verdadeiro “novelão”. O primeiro episódio foi tão impressionante que até a inserção de merchandising de um famoso refrigerante soou natural. Aguinaldo Silva, um autor que sabe como escrever e aprecia o gênero, realmente eleva a qualidade das novelas!