Na semana passada, foi anunciado que o SBT cortou 50 postos de trabalho na equipe de produção de suas novelas. De acordo com a emissora, essa medida não representa um desmonte do setor de teledramaturgia, mas sim uma reestruturação. O canal assegura que o segmento de novelas continuará ativo e novos projetos estão em desenvolvimento para breve.
A crise que afeta a teledramaturgia do SBT é apenas mais um desafio que a emissora tem enfrentado nos últimos anos. Com uma audiência em declínio e constantes alterações na programação que não têm gerado resultados significativos, o canal vive uma de suas fases mais difíceis desde sua fundação em 1981. Observando os eventos recentes, a situação atual das novelas não é uma grande surpresa.
Em 2012, ao investir no segmento infantil com a adaptação de “Carrossel”, o SBT encontrou um verdadeiro filão. Essa produção não apenas garantiu a vice-liderança em audiência, mas também se transformou em uma excelente fonte de receita através de produtos licenciados. Após “Carrossel”, a emissora lançou outros sucessos como “Chiquititas” e “Carinha de Anjo”, mas cometeu um erro crucial: não reinvestiu os lucros obtidos com as novelas infantis em outras áreas da programação, nem diversificou seus investimentos em dramaturgia.
O SBT se acomodou, acreditando que seu relacionamento com o público infantil seria eterno, supondo que as crianças aceitariam qualquer história exibida. Essa visão otimista não se concretizou, e a emissora vem enfrentando as consequências desse descaso nos últimos anos, com insucessos como “A Infância de Romeu e Julieta” e “A Caverna Encantada”.
Antes de intensificar seus investimentos em teledramaturgia, o SBT precisa reorganizar suas operações e ajustar a programação para reconquistar tanto a audiência quanto os anunciantes. Produzir novelas é um empreendimento caro e arriscado, que requer um planejamento a longo prazo, algo que faltou durante a fase de foco nas produções voltadas para o público jovem. Neste cenário desafiador, uma estratégia viável seria explorar a exibição de produções internacionais, como a emissora já anunciou.
Uma vez que a saúde financeira do canal esteja restabelecida, caso decida retomar a produção de novelas, o SBT deve considerar um aspecto fundamental: diversificar a equipe criativa responsável por essas obras. Não é possível que a emissora dependa apenas de Iris Abravanel e seus colaboradores. Existem muitos roteiristas talentosos e experientes fora das grandes emissoras que poderiam enriquecer a dramaturgia do canal. A diversidade de vozes é essencial para se conectar com um público mais amplo, algo que Silvio Santos já compreendia ao tentar reunir, nos anos 90, nomes como Gloria Perez, Benedito Ruy Barbosa e Walther Negrão.
Embora o nicho de novelas infantis possa ser revisitável, é crucial que haja uma rotatividade nas lideranças criativas. Além disso, não se pode esquecer das tramas voltadas para o público adulto, uma vez que uma parte significativa da audiência já se habituou a assistir tanto produções mexicanas quanto adaptações brasileiras de obras hispânicas. Vale lembrar que as novelas destinadas ao público adulto oferecem mais oportunidades para inserções de merchandising, o que pode ajudar a aliviar os custos.
Uma possibilidade para diversificar a ficção voltada para o público adulto seria estabelecer uma parceria com plataformas de streaming, como a HBO Max, que já manifestou interesse em produzir pelo menos uma novela anualmente.
Existem caminhos viáveis para que o SBT se reergue, mas isso exigirá tempo e decisões mais audaciosas por parte da direção da emissora, superando as abordagens conservadoras adotadas recentemente.