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‘Já interrompi um momento íntimo para memorizar um texto’: Nany People e sua paixão pelo teatro

Imagem: Reprodução/Instagram

Nany People transcende o rótulo de artista multifacetada; ela se tornou um ícone de resistência, reinvenção e bravura em um país que ainda está em processo de plena aceitação da diversidade. Em um diálogo tocante repleto de recordações, ela revisita sua trajetória com honestidade, humor e sensibilidade.

Em meio a reflexões sobre identidade, arte, ativismo e perdas, Nany compartilha os marcos que a tornaram uma das personalidades mais admiradas da cultura brasileira. Ouvi-la é celebrar a vida, a resiliência e a capacidade de se reinventar em qualquer fase da vida, seja aos 30, 40, 50 ou 60 anos.

Infância e descoberta pessoal
Desde a infância, Nany revela que nunca se sentiu parte do universo masculino. Aos 11 anos, enfrentou uma visita ao psiquiatra que a diagnosticou com “disfunção social”, mas encontrou apoio inabalável em sua mãe, a quem atribui grande parte de sua força e estabilidade emocional. Durante a adolescência, chegou a utilizar hormônios masculinos na tentativa de se encaixar nas expectativas sociais, o que atrasou sua transição. “Eu nunca me vi como um menino. Desde pequena, minha identidade era feminina.”

Transição e início da trajetória profissional
Em São Paulo, na Rua São Caetano, Nany descobriu outras pessoas trans e compreendeu que não era apenas um homem gay, mas uma mulher transexual. Apesar disso, hesitou em se restringir a carreiras noturnas ou no setor de beleza. Com determinação, começou sua jornada como camareira, passou pela bilheteira e administração, até finalmente estrear como atriz. Sua transição aconteceu mais tarde, na casa dos 30 anos, quando afirma ter finalmente reivindicado sua sexualidade e seu prazer. “Foi o momento em que passei a ser, estar, permanecer e ficar.”

A arte como um caminho de resistência
A carreira como drag e atriz abriu portas para a televisão, rádio e teatro. Com uma formação sólida, Nany conquistou espaços que antes eram inacessíveis a artistas trans. Participou de programas como o de Goulart de Andrade, tornou-se empresária, registrou seu nome artístico e criou espetáculos que a levaram a percorrer o Brasil e o mundo. Apesar das barreiras e do preconceito, ela afirma que o teatro sempre foi seu verdadeiro amor. “Qual outro parceiro me acolheria todas as noites, me confortaria e pagaria minhas contas?”, brinca a artista, que revela: “Já interrompi um momento íntimo para decorar um texto. Sou desse jeito.”

Ativismo e reflexão sobre a Parada LGBT
Como uma das fundadoras da Parada LGBT de São Paulo, Nany explica seu afastamento do evento devido a desavenças com a direção, mas reconhece a importância da iniciativa na luta por direitos. “Assistíamos amigas sendo agredidas nas calçadas, se prostituindo. Não havia a quem recorrer.” Ao recordar as experiências de violência, exclusão e marginalização enfrentadas por pessoas trans e travestis, Nany reforça a urgência de uma inclusão genuína, não apenas simbólica ou performática. “Não adianta falar de inclusão se você não a pratica. Quantos funcionários trans você tem?”, provoca.

Projetos atuais e legado
Aos 60 anos, Nany exibe uma vitalidade admirável. Está lançando seu segundo livro, “Ser Mulher Não é Para Qualquer Um”, coautorado com Flávio Queiroz, e estreando um espetáculo com o mesmo título. “Não se nasce mulher, torna-se. Mas além de se tornar, é preciso se manter”, afirma. A artista continua realizando shows pelo Brasil, gravando uma nova temporada de “Vai Que Cola” (Multishow) e desenvolvendo outros projetos, como os espetáculos “Nany Canta Fafá”, “Nany People: Então Deu No Que Deu” e “Como Salvar um Casamento”.

Nany expressa gratidão por sua relação com ícones como Fafá de Belém, Lilia Cabral, Hebe Camargo e Rogéria — esta última, que faleceu em 2017, foi uma das maiores perdas para Nany, ao lado de sua amiga peruqueira Velani e de uma amiga de Curitiba.

Filosofia de vida
Com uma forte influência da espiritualidade materna e da fé, Nany defende a importância de viver o presente intensamente. “Minha mãe me protegeu, me incentivou e me amou muito. A força que possuo vem dela”, comenta a artista. Sua mensagem central é clara: “Você deve ser feliz agora” e rejeita a ideia de que o sofrimento é um caminho necessário para alcançar a realização, valorizando o riso, a leveza e o prazer. “Você tem que ser feliz agora. Amanhã pode não haver a oportunidade.”

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade