** Para muitos, o término de um ciclo pode ser encarado como uma perda, mas para Júlia Lemmertz, aos 62 anos, foi uma verdadeira libertação. Em 2024, a atriz concluiu mais de quatro décadas como funcionária da Globo e descreve essa nova fase como “livre para realmente seguir minhas próprias vontades”.
Seu novo projeto abrange uma variedade de iniciativas, desde montagens teatrais e produção cinematográfica até uma experiência inusitada em sua trajetória: a narração de audiolivros. Ela deu início a essa nova jornada ao narrar “Amar, Verbo Intransitivo”, obra de Mário de Andrade, em parceria exclusiva com a Audible. “É intimidador dar voz a um clássico como este”, confessa ela.
**Desafiando a atuação em silêncio**
Embora esteja entusiasmada com essa nova aventura, Júlia Lemmertz não esconde que o desafio foi significativo. Passou dias imersa em um estúdio pequeno, acompanhada apenas pelo microfone e pela obra de Mário de Andrade, que narra o romance entre um jovem e sua professora alemã.
“Foi como atuar no escuro. Cada personagem demandava um ritmo distinto. A Fraulein [professora] possui uma cadência quase musical, enquanto o narrador é o próprio Mário, com uma ironia afiada e um olhar observador. Minha intenção não era criar vozes diferentes, mas manter ritmos únicos.”
O desafio foi tão grande que ela precisou de uma professora de alemão para auxiliar na narração, já que alguns trechos eram extensos e apenas nesse idioma, incluindo poemas, músicas e frases de Goethe e Schiller. “Foi um desafio e tanto”, ressalta Lemmertz.
Essa obra tem um significado particular para a atriz, já que sua mãe, Lilian Lemmertz, interpretou a Fraulein no filme “Lição de Amor” (1975). “Lembro-me dela filmando em Petrópolis. Anos depois, ao reler o livro, consegui perceber sua complexidade.”
Graças a esse livro, redescobri Mário de Andrade, que aborda temas como racismo, misoginia e sexualidade com um humor mordaz. Uma cena no trem me fez rir em voz alta enquanto lia. Mário expõe a hipocrisia da classe burguesa de uma maneira que parece refletir o nosso tempo.
Ao discutir o tema central da obra, Lemmertz também comentou sobre seu relacionamento com o ator Alexandre Borges, com quem foi casada por 22 anos e tem um filho, Miguel, de 25 anos. “Eu acredito que o amor é isso. É sobre saber transformar. Ele não se limita a um momento.”
Você ama alguém porque está vivendo aquele momento. E quando a relação termina, você deixa de amar? Isso é curioso. Como é possível deixar de amar alguém? Eu acho que o amor se transforma, mas continua a ser amor.