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Um corte na perna e um diamante na mão: minha experiência de 15 minutos com Lady Gaga

Imagem: Reprodução/Instagram

Lady Gaga, aos 39 anos, não exala fragrâncias marcantes, mas sim um aroma totalmente neutro. Se você, caro leitor, não tem ídolos, pode achar curiosa essa observação que parece trivial. Contudo, se é fã de alguém, compreenderá que essa é uma das primeiras perguntas que os little monsters costumam fazer quando compartilho a história da minha entrevista com a artista.

Essa curiosidade é perfeitamente válida. Lady Gaga é uma figura quase mítica — e se você duvida, basta perguntar às milhares de pessoas que se reuniram em Copacabana, no Rio, neste último fim de semana, muitas das quais nem a viram, mas estavam lá apenas para sentir a energia de estar no mesmo espaço que a diva. Ela e sua obra representam valores, experiências de vida e emoções profundas. O que mais desejamos de alguém assim é o simples e humano: uma conexão genuína, qualquer que seja. E foi exatamente isso que encontrei.

Era setembro de 2024 e eu estava em Los Angeles a convite da Warner Bros. Pictures para entrevistar o elenco de “Coringa: Delírio a Dois”, que chegaria aos cinemas nas semanas seguintes. O calor estava intenso, mas eu me sentia à vontade no ar-condicionado do hotel onde as entrevistas aconteceriam. Era meu segundo dia na cidade que parece um cenário de filme, uma experiência que me fascinava e, ao mesmo tempo, me deixava saudosa por aqueles pequenos sinais de humanidade.

No primeiro dia, conversei por 15 minutos com o protagonista Joaquin Phoenix e o diretor Todd Phillips, em uma mesa redonda não muito grande, com outros três jornalistas de diferentes partes do mundo. O ambiente era descontraído, apesar de algumas peculiaridades. As perguntas eram feitas em uma ordem pré-estabelecida; em uma entrevista seguimos no sentido anti-horário, na outra, no horário.

Conseguimos estabelecer um bom fluxo de perguntas, evitando que um atrapalhasse o outro. Faltavam apenas 15 minutos para a chegada de Lady Gaga. Nesse intervalo, testei o gravador do celular várias vezes, já que era o único registro permitido, uma vez que câmeras estavam proibidas.

Enquanto eu lidava com a tecnologia, a equipe do filme enfrentava seus próprios contratempos. Uma assessora educada informou que um pequeno atraso em algum ponto da programação resultou em um efeito dominó, fazendo com que Gaga chegasse alguns minutos depois. Depois, de forma menos polida, ela voltou para adicionar mais cadeiras à mesa — e assim descobrimos que, em vez de 20 minutos para quatro jornalistas, teríamos apenas 15 minutos divididos entre dez.

Percebi que essa nova dinâmica poderia prejudicar as perguntas: se Gaga se alongasse nas respostas como Phoenix, alguns de nós certamente ficariam sem chance de perguntar. Com a assessora definindo os lugares, decidi correr para me sentar ao lado dela, bem próximo da porta. Na melhor das hipóteses, teríamos uma conversa no sentido anti-horário e eu poderia ser a primeira a perguntar. Na pior, ainda assim teria a experiência de estar ao lado de Lady Gaga por 15 minutos.

Logo, ficou claro que a assessora educada não tinha uma noção precisa do que significava “alguns minutos” — o atraso se estendeu por uma hora, fazendo com que eu começasse a me preparar mentalmente para o possível “ela não vem”. Minha apreensão só se dissipou quando um novo assessor entrou e colocou uma xícara fumegante diante do assento que seria ocupado pela cantora. Não sabia se era café ou chá, mas para mim, aquele gesto trouxe um certo alívio.

Para ser honesta, não sou uma grande fã da artista. Gosto de algumas de suas canções e admiro sua defesa firme da comunidade LGBTQIA+, mas sua obra não teve o mesmo impacto em minha vida que teve na de muitos que a aguardavam em Copacabana naquele instante. Além disso, após anos entrevistando celebridades, aprendi a conter meu deslumbramento diante de figuras famosas. No entanto, esse controle foi por água abaixo quando Lady Gaga entrou na sala e fez uma observação bem-humorada sobre o número de jornalistas apertados ao redor da mesa: “Que aconchegante!”

O que me impressionou imediatamente foi sua estatura. Embora eu soubesse racionalmente que ela mede apenas 1,55 m, seus saltos de pelo menos 20 centímetros a deixaram com uma aparência ainda mais alta. Contudo, quando ela me cumprimentou com um “Bom dia”, o pensamento que me invadiu foi: como é possível que Lady Gaga, essa figura lendária, seja tão pequena?!

Ela se acomodou de maneira descontraída, com as pernas abertas e os cotovelos apoiados nos joelhos. A entrevista começou em sentido horário — eu não sou uma boa apostadora. Enquanto uma jornalista japonesa perguntava sobre a diferença entre a Harley Quinn dela e outras versões, eu dividia minha atenção entre o relógio do celular e a estrela ao meu lado.

Fiz contas mentais para avaliar se ainda teria tempo para fazer uma pergunta. Para minha felicidade, Lady Gaga é ótima em fornecer respostas diretas e completas. Eu diria que isso é um reflexo de sua longa carreira de mais de 15 anos, não fosse a linha de raciocínio caótica que presenciei em Joaquin Phoenix, com sua vasta experiência em Hollywood.

Em algumas ocasiões, um jornalista ousava fazer uma segunda pergunta — quase um crime em tais situações. Gaga mantinha a calma em suas respostas, mas esses segundos preciosos me deixavam ansiosa novamente. Posso não ser uma boa apostadora, mas sou capaz de multitarefas: enquanto calculava mentalmente, tentava guardar cada detalhe daquela cena.

Gaga estava com os cabelos platinados presos em um coque, adornados por um chapéu e um mini véu de tule preto. De perto, percebi as raízes escuras aparecendo, assim como a covinha no famoso nariz da cantora. As lentes de contato eram visíveis em seus olhos, e na canela, eu avistei um pequeno corte. Na mão esquerda, o imponente diamante de seu anel de noivado com Michael Polansky brilhava.

Enquanto absorvia essas pequenas evidências de humanidade, mantive atenção nas perguntas de todos. Com tantos jornalistas de diferentes países, os temas eram variados: música, maquiagem, super-heróis. No entanto, havia uma constante nas respostas de Gaga: o orgulho que ela sentia pelo trabalho realizado. Sabendo hoje do insucesso de “Coringa: Delírio a Dois”, pode ser difícil acreditar, mas naquele momento, ela expressava claramente o apreço pelo filme e por sua personagem.

Quando o relógio atingiu os temidos 15 minutos, ela ainda estava finalizando a resposta para um colega ao meu lado. Vi a assessora se aproximar e comecei a reunir coragem para ser um pouco inconveniente com ela (justamente ela, a educada) e pedir mais uma resposta. Se tivesse sucesso, ótimo. Se não, já estava pensando no texto que escreveria com o material que consegui.

No final, não precisei ser inconveniente: a assessora anunciou que só havia tempo para mais uma pergunta. “Ufa!”, comentei, fazendo Lady Gaga sorrir — uma frase que ainda me espanta ter conseguido dizer.

Enquanto ouvia as perguntas e respostas, percebi que ela tinha muito a compartilhar sobre a dinâmica de poder entre o Coringa de Joaquin Phoenix e sua Arlequina. A personagem possui, simultaneamente, a vulnerabilidade de uma fã e a assertividade de uma líder. Por isso, mudei a pergunta que havia planejado e questionei sobre essas contradições presentes na personagem.

Como se estivesse conversando com uma amiga no sofá de casa, escutei sua resposta, o maior sinal de humanidade de todos: “Às vezes, a vida não faz sentido. Quando estamos criando algo, sentimos a necessidade de dar sentido a tudo: ‘Um mais um é sempre dois’. Mas nós, seres humanos, erramos o tempo todo. Somos contradições ambulantes; dizemos uma coisa e fazemos o oposto. É isso que somos.”

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade