Temas como homoafetividade, relacionamentos abusivos, racismo no trabalho e machismo podem parecer incompatíveis com uma novela leve das sete, mas Claudia Souto, autora de “Volta Por Cima”, desafiou essa percepção. Com uma abordagem inteligente, bem-humorada e estratégica, ela conseguiu integrar questões relevantes em uma narrativa familiar e acessível.
Junto de sua talentosa equipe, composta por Wendell Bendelack, Julia Laks, Isadora Wilkinson e Juliana Peres, Claudia desenvolveu uma história que mescla leveza e profundidade, evitando discursos vazios e panfletários. Ao se despedir de “Volta Por Cima”, que encerra hoje com um bom desempenho de audiência e reconhecimento tanto do público quanto da crítica, Claudia reflete sobre a trajetória da novela.
Qual é a sua avaliação sobre a jornada de “Volta Por Cima”? Quais foram as surpresas ao longo do caminho? Tive várias surpresas. Uma delas foi a identificação instantânea do público com a trama. Desde os primeiros capítulos, a novela foi muito bem recebida, o que me deu confiança para seguir em frente.
Quanto aos personagens, a Roxelle (Isadora Cruz) surpreendeu-me. Inicialmente, ela foi concebida como a vilã da Madá (Jéssica Ellen), mas a empatia que a interpretação de Isadora gerou fez com que eu percebesse que ela não poderia ser apenas uma antagonista. Ela é carismática e brilha, e decidi que seu papel deveria trazer alegria ao público, em vez de raiva.
Assim, a vilã passou a ser Cacá (Pri Helena), que se destacou na novela. Ela começou como a capanga de Osmar (Milhém Cortaz) e Violeta (Isabel Teixeira), mas à medida que escrevia, percebi que ela se destacava cada vez mais. O personagem mal existia na sinopse original, mas ganhou uma nova vida.
Outra novidade foi a forma como conduzi a narrativa. Normalmente, os casais principais demoram a se unir, mas percebi que o público torcia por Jão (Fabricio Boliveira) e Madalena desde o início, e tive dificuldade em separá-los. Isso me permitiu juntá-los antes do esperado, antecipando até o casamento, que costuma acontecer no final da trama. A necessidade do público me incentivou a ser mais moderna.
Apesar de ser uma novela das sete, você conseguiu abordar temas controversos, como relacionamentos tóxicos, relações homoafetivas e machismo. Esses tópicos estavam incluídos na sinopse original? Ao tratar de assuntos delicados, é essencial entrar na casa das pessoas com respeito, especialmente em um país com raízes machistas e racistas. Embora eu reconheça essas realidades, também vejo o Brasil como um lugar acolhedor e diverso. Quando bem construídas, as relações homoafetivas ganham espaço na sociedade, pois o público começa a torcer pelo amor em vez de se fixar em bandeiras. Prefiro a sutileza ao barulho, pois quando ressoa, faz isso através da aceitação e do afeto.
Sobre relacionamentos tóxicos, já havia abordado isso em “Cara e Coragem”, e recebi muitos relatos de espectadoras se reconhecendo nas situações. Em “Volta Por Cima”, o vilão Gerson (Enrique Diaz) foi desenvolvido para destacar a falta de empatia, permitindo que o público visse claramente suas maldades. Isso me possibilitou explorar o tema mais a fundo, especialmente com o sinal de socorro que Roxelle utiliza para escapar de Gerson, que se tornou um ponto significativo de discussão.
Outro aspecto importante foi a realidade abordada por Jão, que fala sobre a triste realidade de desigualdade salarial racial. Fabricio me trouxe dados sobre isso, e decidimos incluir no final da trama uma crítica ao problema, mostrando que não basta apenas apontar as falhas, mas também imaginar soluções.
Sinto um imenso orgulho de que, na segunda pesquisa qualitativa da novela, a palavra mais mencionada foi “reflexão”. No início, o foco era a diversão, e se consegui fazer o público refletir através do entretenimento, já me sinto realizada, embora agora me questione sobre o início de uma nova novela.
Como surgiu a ideia de incluir a cultura coreana em “Volta Por Cima”? O primeiro impulso foi atrair um público jovem, fã de K-pop, mas descobri que pessoas mais velhas também se interessam. Desde o início, queria explorar a crueldade do sistema de trabalho na indústria do K-pop. Recebi relatos de uma amiga sobre as dificuldades que os jovens enfrentam, como terem seus celulares confiscados e a pressão para manter o peso. Isso me motivou a abordar a questão.
Além do núcleo de K-pop, outras escalas de atores asiáticos estavam previstas? Meu objetivo era que a novela fosse inclusiva, mostrando que os personagens asiáticos não se limitassem ao universo do K-pop. Quis evidenciar as diferenças culturais entre chineses e coreanos em algumas cenas. Esta é a primeira vez que abordo a cultura asiática em uma novela, mas sempre fui fascinada por ela. A primeira sinopse que escrevi em 2005 tinha uma protagonista chinesa, que quase foi aprovada, mas a minha ideia foi engavetada quando “Negócio da China” entrou em produção.
Muitos falam sobre uma possível crise na teledramaturgia. O que você acredita que o público procura em uma novela? O público é dinâmico e, após a pandemia, o espectador se tornou diferente daquela massa que escrevi “Pega Pega” em 2017. As mudanças nos hábitos e na percepção do mundo são notáveis. O público atual busca identificação, emoção e conexão, que vão desde a raiva até a paixão. Uma coisa permanece: o sucesso de uma novela está ligado ao desejo do público de se sentir próximo dos personagens.