É imprescindível discutir a situação do Vasco. Não apenas pela sua presença na final da Copa do Brasil, mas pelo que esse momento revela sobre bravura, riscos e a paixão por um clube que, há mais de duas décadas, enfrenta a instabilidade como uma constante. Dentre os grandes clubes do país, poucos passaram por uma trajetória tão desafiadora, talvez apenas o Corinthians, mas em um cenário histórico e econômico completamente diferente.
Fernando Diniz aceitou uma tarefa que poucos teriam coragem de enfrentar. Ele chegou em um contexto de pressão, em um ambiente político desgastado, com incertezas jurídicas e um elenco emocionalmente abalado. Sua influência sobre os grupos que comanda transcende o estilo de jogo. Diniz promove uma responsabilidade coletiva, defende suas convicções mesmo diante de críticas severas e protege o seu time em campanhas repletas de altos e baixos, como foi o Campeonato Brasileiro. Manter suas convicções nesse cenário é, na prática, estar disposto a expor-se ao erro em público. Proteger um grupo nessas condições não é apenas retórica, é um esforço diário. A presença em mais uma final não é um mero acaso, mas sim um sinal de consistência. Diniz, com suas ações, solidifica seu lugar entre os grandes nomes do futebol brasileiro.
Quando se fala do presidente Pedrinho, a análise deve ser precisa. Trata-se não apenas de coragem institucional, mas de patrimônio pessoal. Colocar bens próprios em risco para manter o Vasco ativo não é um ato simbólico, é uma aposta real. Em um clube que vive há mais de vinte anos crises financeiras, políticas e esportivas, continuar funcionando já seria uma conquista significativa. No entanto, ele foi além, enfrentou desafios, buscou parcerias, confiou em pessoas de sua confiança e assumiu uma liderança que reflete claramente sua trajetória como atleta: talento, responsabilidade e a habilidade de resistir, mesmo quando limites físicos e contextuais se impõem. O clube, enquanto instituição, atravessa um momento que ecoa 2011. Naquele ano, a Copa do Brasil trouxe esperança e identidade em um período já conturbado. Embora não tenha resolvido todos os problemas, isso é algo que a história comprova. Que esta nova final sirva, ao menos, como um marco de pacificação política e amadurecimento institucional. O Vasco precisa urgentemente substituir conflitos internos por um projeto comum. Contudo, isso não elimina a necessidade de uma estrutura sólida, governança e sustentabilidade. Resolver a questão da SAF do clube é essencial para seu futuro.
E quanto à torcida, talvez o ativo mais testado do futebol brasileiro. Poucos clubes exigiram tanto emocionalmente de seus torcedores e, ao mesmo tempo, devolveram tão pouco ao longo do tempo. Mesmo assim, a paixão nunca se esvaiu. Ela se fortalece a cada partida, a cada arquibancada lotada, a cada demonstração de lealdade. O vascaíno não apenas apoia; ele persiste. E a resistência, no futebol, é a expressão mais profunda da identidade.
Permita-me um desabafo pessoal. Há mais de duas décadas, morei literalmente sob as arquibancadas do Gigante da Colina. Nesse local, contribuí ativamente para a concepção, aprovação e implementação do Colégio Vasco da Gama, o primeiro colégio dentro de um grande clube brasileiro. Um projeto educacional inovador, motivo de legítimo orgulho para os torcedores. Entre seus alunos estava Philippe Coutinho, hoje um dos líderes deste elenco. Às vezes, a vida interliga trajetórias individuais para contar histórias coletivas.
A final não representa o fim. A jornada do Vasco da Gama ainda se desenrola em águas turbulentas. Vencer ou perder trará consequências. No entanto, após um longo período, há liderança, propósito e pessoas dispostas a arcar com o custo dessa travessia.
Felipe Ximenes escreve sua coluna no Lance! todas as quartas-feiras. Confira outros textos do colunista:
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