A segunda disputa entre Flamengo e Palmeiras pela Libertadores nesta década representa apenas mais um episódio em uma narrativa muito mais ampla. A rivalidade entre essas duas equipes transcende uma simples disputa regional entre Rio e São Paulo, alcançando um âmbito nacional e continental, com o embate marcado para este sábado (29/11), às 18h (horário de Brasília).
É amplamente reconhecido que ambos os clubes estão entre os mais lucrativos do Brasil, com receitas que superam a casa do bilhão. Essa condição financeira os permite formar elencos altamente competitivos, o que resulta em um ciclo duradouro de disputas por títulos desde 2016, com poucos momentos em que um ou outro esteve afastado do topo.
Historicamente, o futebol brasileiro já testemunhou rivalidades interestaduais marcantes, como Santos e Botafogo durante a era de Pelé e Garrincha, Flamengo e Atlético nos anos 80, e Grêmio e Palmeiras na década seguinte. Contudo, a rivalidade atual entre Flamengo e Palmeiras parece estar destinada a perdurar por um período ainda mais extenso.
O que explica isso? A reestruturação financeira de ambos os clubes, que começou no início da década de 2010, embora de maneiras diferentes, confere solidez a suas aspirações por títulos. Enquanto o Flamengo revelou e negociou talentos como Paquetá, Vini Jr e Reinier, o Palmeiras tem capitalizado sua base com jogadores como Endrick, Estêvão, Luís Guilherme e Vitor Reis. Abel Ferreira destacou em uma coletiva de imprensa na sexta-feira (28/11) como essa organização interna faz diferença.
“Ambos os clubes se estruturaram internamente, com processos bem definidos, grandes jogadores e gestões profissionais, o que lhes permite negociar atletas. Com saúde financeira, é possível competir em alto nível. Passei por uma fase boa no Palmeiras, mas o Flamengo também enfrentou dificuldades até se organizar e se profissionalizar. A profissionalização é essencial, e é necessário ter pessoas competentes em todas as áreas”, afirmou o treinador do Palmeiras.
Abel complementou que, embora o Palmeiras e o Flamengo tenham visões diferentes, ambos almejam o mesmo objetivo. “Cada um tem sua filosofia, mas a profissionalização e a competência são fundamentais para que as equipes alcancem o nível dos melhores clubes europeus”, concluiu.
No cenário nacional, o Palmeiras encontrou no Flamengo seu principal adversário pela conquista de títulos, especialmente com a queda de rendimento dos rivais paulistas. O Corinthians enfrenta uma crise financeira e administrativa, o São Paulo já não é a potência que foi nos anos 2000 e atualmente vive dificuldades financeiras, e o Santos luta contra o rebaixamento, apesar do retorno de Neymar.
Embora o Botafogo tenha sido o campeão da Libertadores e o Fluminense o anterior, ambos não possuem a mesma força econômica que o Flamengo, resultando em uma diferença técnica que, em algumas ocasiões, é compensada por narrativas específicas durante os clássicos.
Ao longo dessa recente trajetória, diversos episódios tanto dentro quanto fora de campo reforçam a grandeza do confronto que ocorrerá em Lima. Os dirigentes também contribuíram para isso. De um lado, temos Bap e do outro, Leila Pereira, ambos conhecidos por suas declarações contundentes e provocações. Leila já popularizou o termo “terraflanismo”, enquanto Bap declarou que a Libra é verde. As críticas à arbitragem também não faltam, com técnicos e diretores envolvidos nas discussões.
Até mesmo o governador do Rio, Claudio Castro, entrou na polêmica, tentando acessar o vestiário do Flamengo durante um evento e enfrentando resistência. No confronto no Maracanã, foi a vez de Leila alegar que o governador impediu sua passagem em frente ao camarote, o que ela interpretou como uma vingança.
Abel Ferreira, que lidera o Palmeiras há um bom tempo, também se tornou uma figura emblemática dessa rivalidade. Filipe Luís o considera o melhor técnico do Brasil, mas deseja construir sua própria narrativa a partir da final deste sábado (29). No Brasileirão, o Flamengo está próximo do título, com uma vantagem de cinco pontos. Sobre a arbitragem, Filipe acredita que o Palmeiras não tem do que reclamar.
Enquanto os flamenguistas frequentemente mencionam que “o Palmeiras não tem Mundial”, para os palmeirenses, o “cheirinho” se tornou um símbolo de esperança, lembrando momentos emblemáticos, como quando a delegação do Palmeiras fez esse gesto em frente a uma loja do Flamengo no Aeroporto Santos Dumont. E não podemos esquecer de Andreas Pereira, que, após ter sido considerado vilão do Flamengo em 2021, agora vestirá verde neste sábado (29).
A rivalidade entre as torcidas é histórica e marcada por desavenças devido a alianças externas. A torcida do Flamengo, por exemplo, tem laços com as do São Paulo e do Cruzeiro, enquanto a do Palmeiras se alia a Vasco e Atlético-MG. Essas rivalidades já resultaram em conflitos, como o ocorrido em 2016 no Mané Garrincha, e em confrontos em Montevidéu em 2021, além do que se espera em Lima.
Dada a solidez dos projetos de ambos os clubes, o embate no Monumental de Lima certamente não será o último confronto significativo entre Palmeiras e Flamengo. A rivalidade só tende a crescer, especialmente com a disparidade em relação aos demais clubes.