No último fim de semana, a participação do Brasil no Grand Slam de Judô em Astana foi marcada pela predominância feminina, que garantiu todas as seis medalhas do país na competição. Em uma conversa exclusiva com o Lance!, Rosicleia Campos, treinadora do judô no Flamengo e com uma rica trajetória no esporte, compartilhou sua visão sobre o atual panorama do judô feminino brasileiro e as perspectivas para o ciclo olímpico que se aproxima.
Rosicleia iniciou sua jornada no judô nos anos 1980, após a revogação da proibição da prática do esporte por mulheres no Brasil. Até 1979, um decreto de 1941 impedia que as mulheres se dedicassem a esportes considerados “incompatíveis com sua natureza”, incluindo judô e futebol. Desde então, Rosicleia construiu uma carreira notável, atuando como atleta, treinadora e coordenadora da Seleção Brasileira.
“Meu maior objetivo sempre foi conquistar o reconhecimento e respeito pelo judô feminino, dando-lhe autonomia. Dediquei minha vida a essa causa e é gratificante ver o judô alcançando a relevância que tem hoje. A transição de atleta para treinadora foi desafiadora, enfrentei muitos preconceitos por ser mulher e jovem, sendo vista como uma intrusa em um espaço tradicionalmente masculino. Para lidar com isso, precisei ser firme, pois a pressão era intensa e era necessário apresentar resultados em troca de investimentos”, relatou.
Rosicleia destacou os diversos sacrifícios feitos em prol do desenvolvimento de uma geração vencedora no judô feminino, incluindo renúncias familiares. Ela, que foi mãe durante os ciclos olímpicos de Londres 2012 e Rio 2016, recorda ter perdido momentos preciosos, como as primeiras palavras e os primeiros dentes dos filhos, enquanto se dedicava ao judô. Contudo, os esforços começaram a dar frutos, e as judocas brasileiras começaram a se destacar nas competições internacionais.
“Conseguimos separar o judô feminino do masculino, estabelecendo um planejamento único e autônomo. Isso resultou em grandes conquistas, como a primeira medalha olímpica com Ketleyn Quadros, o primeiro ouro mundial com Rafaela Silva e o primeiro ouro olímpico com Sarah Menezes. Fui a primeira treinadora mulher a receber o Prêmio Brasil Olímpico de Melhor Treinadora. Ao olhar para o passado e ver a linda trajetória do judô feminino, percebo que minha vida está entrelaçada a essa história que ajudei a construir”, afirmou.
Desde os Jogos de Pequim 2008, o judô feminino brasileiro conquistou medalhas em todas as edições olímpicas. Na última Olimpíada, as mulheres superaram os homens em número de medalhas, com três ouros, sendo um deles no judô, conquistado por Bia Souza. Para os Jogos de Los Angeles 2028, o Comitê Olímpico Internacional (COI) espera que haja mais mulheres do que homens competindo, o que, segundo Rosicleia, traz boas perspectivas para o judô no Brasil.
“Busquei sempre a equidade na Seleção Brasileira, pois precisamos primeiro garantir a equidade para depois buscarmos a igualdade. O fato de o COI ter igualado o número de vagas para mulheres e homens, que antes era desigual, é um avanço crucial. Eu vivi em uma época em que o judô feminino não tinha a oportunidade de viajar. Carrego muitas cicatrizes de um tempo em que não havia espaço para o judô feminino. O que posso dizer sobre ele? Acabamos de conquistar um ouro em uma Olimpíada, um bronze com Larissa, e um bronze inédito na competição por equipes com Rafaela Silva. Estamos diante de um ciclo olímpico repleto de oportunidades e comprometimento”, concluiu.