Em 1990, um político de 40 anos atravessava os jardins do Palácio da Alvorada como o primeiro presidente escolhido pelo voto direto após o período da ditadura militar. Ele se apresentava como o “caçador de marajás”, prometendo reduzir a presença do Estado e devolver o controle econômico ao povo brasileiro. Mais de trinta anos depois, o mesmo indivíduo enfrenta uma ordem de prisão emitida pelo Supremo Tribunal Federal.
Fernando Affonso Collor de Mello veio de uma influente família da política alagoana. Filho do ex-governador e senador Arnon de Mello, rapidamente iniciou sua carreira em cargos públicos: foi prefeito de Maceió, deputado federal e governador de Alagoas.
Atingiu notoriedade nacional ao lançar uma campanha contra os salários elevados do funcionalismo público, adotando um discurso de combate aos “marajás”. Em um contexto de insatisfação popular devido à crise econômica, sua proposta ressoou entre os eleitores. Com mensagens diretas que refletiam o desejo da população, Collor derrotou Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições de 1989.
No primeiro dia de seu mandato, Collor anunciou medidas severas para enfrentar a hiperinflação. Sob a orientação da ministra Zélia Cardoso de Mello, implementou o Plano Collor, que incluía o confisco de parte das economias em contas bancárias. Essa ação visava reduzir a quantidade de dinheiro em circulação, mas resultou em uma crise de confiança entre os cidadãos. A inflação continuou, o comércio encolheu, e o apoio popular ao governo despencou rapidamente. Uma nova tentativa, o Plano Collor 2, também falhou em estabilizar a situação.
Em 1992, o escândalo e as denúncias do próprio irmão, Pedro Collor, abalaram a estrutura do governo. Ele acusou Paulo César Farias, tesoureiro da campanha presidencial, de estar envolvido em um esquema de corrupção que beneficiava o presidente. A crise se agravou quando surgiu a evidência de que um Fiat Elba havia sido adquirido com recursos desviados por Farias, desencadeando a mobilização dos “caras-pintadas”, estudantes que foram às ruas para pressionar o Congresso.
Uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) foi criada. Collor tentou resistir, mas acabou renunciando antes do processo de impeachment em dezembro de 1992. No dia seguinte, os senadores votaram pela cassação de seu mandato e a perda de seus direitos políticos por oito anos.
Após a renúncia, Collor se afastou da vida política e residiu por um tempo nos Estados Unidos. Ele retornou ao cenário eleitoral em 2002, quando tentou, sem sucesso, o governo de Alagoas. Em 2006, foi eleito senador por Alagoas e permaneceu no cargo por dois mandatos consecutivos.
Durante sua jornada no Senado, Collor enfrentou novas investigações. Em 2015, teve seus bens confiscados durante a Operação Politeia, que estava vinculada à Lava Jato, sendo acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro em relação a contratos da BR Distribuidora, uma estatal da Petrobras.
Em 2023, o Supremo Tribunal Federal o condenou a oito anos e dez meses de prisão em regime fechado. A Corte determinou que Collor favoreceu empresas em contratos com a BR Distribuidora em troca de benefícios ilícitos, com a colaboração de empresários.
Na madrugada de sexta-feira (25/4), Fernando Collor foi detido em sua cidade natal, Maceió (AL), minutos antes de viajar para Brasília, onde planejava se apresentar à Polícia Federal. A ordem de prisão foi emitida um dia antes pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, após a rejeição dos últimos apelos da defesa. Condenado por sua participação em um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro relacionado à BR Distribuidora, o ex-presidente deverá cumprir uma pena de oito anos e dez meses em regime fechado.