Na noite de quinta-feira, 17, enquanto o episódio de “Vale Tudo” era exibido, mais uma controvérsia envolvendo a novela se espalhou nas redes sociais. A vilã Maria de Fátima causou alvoroço com uma declaração: “Não quero nem falar desse atraso de vida. Se Deus quiser, nunca mais encontro esse Tranca-Rua na minha frente.”
A forma depreciativa com que a personagem se referiu à entidade gerou críticas imediatas, especialmente no X (anteriormente conhecido como Twitter), onde internautas destacaram um claro exemplo de intolerância religiosa. Muitos usuários acusaram a produção de associar Tranca-Rua, uma figura importante das religiões de matriz africana, a uma conotação negativa ou demoníaca.
O influenciador e ex-participante do Big Brother Brasil, André Gabhe, se manifestou: “A Globo despejando conteúdo evangélico na cabeça da população desinformada, e me aparece Manuela Dias demonizando Tranca-Rua. Em pleno abril de 2025…”.
Vale ressaltar que a fala de Fátima não estava presente na versão original do capítulo 19, que pode ser assistida no Globoplay. A criação dessa referência negativa a César (Cauã Reymond) como Tranca-Rua é uma adição da autora do remake, Manuela Dias.
É importante lembrar que Tranca-Rua não é considerado uma entidade maléfica nas religiões afro-brasileiras. Na verdade, ele é visto como um guardião de encruzilhadas, protetor dos caminhos e defensor das mulheres e dos marginalizados. Seu papel é abrir caminhos e superar desafios difíceis. A associação com o diabo, comum em alguns discursos cristãos, é um erro de interpretação. Nas tradições do candomblé e da umbanda, Tranca-Rua atua em prol do bem e da justiça.
A declaração da personagem surge em um contexto bastante delicado. De acordo com dados do Disque 100, um canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o Brasil registrou 3.853 violações motivadas por intolerância religiosa em 2024, um aumento superior a 80% em relação aos 2.128 casos de 2023. Somente em 2025, já são 178 denúncias — sendo 60 no estado de São Paulo, seguidas por 21 no Rio de Janeiro e 19 na Bahia. O candomblé e a umbanda já contabilizam 20 casos de ataques motivados por questões religiosas neste ano.
Esse episódio reacende a discussão sobre a responsabilidade da teledramaturgia em retratar, com respeito e compreensão, a diversidade religiosa presente no país.