O deputado federal Elmar Nascimento, do União Brasil da Bahia, destinou R$ 21,2 milhões em emendas para Campo Formoso, uma cidade localizada no interior da Bahia, desde 2016. Esse montante não inclui valores transferidos por meio de emendas de relator, conhecidas como orçamento secreto, ou outros tipos de repasses. A administração do município é de responsabilidade de Elmo Nascimento, irmão do deputado. Recentemente, Campo Formoso foi alvo da Polícia Federal (PF) na operação Overclean, após surgirem evidências relacionadas ao grupo sob investigação em contratos financiados por emendas.
A quantidade significativa de emendas destinadas à cidade despertou a atenção dos investigadores, sendo um dos fatores que levaram a operação Overclean ao Supremo Tribunal Federal no início de janeiro. Ao solicitar novas diligências na terceira fase da operação, a PF indicou que estava analisando os repasses e o envolvimento do deputado. Em um documento da PF, é mencionado que a análise do volume de recursos enviados por Elmar Nascimento a Campo Formoso, em conjunto com a participação direta de seu irmão, o prefeito Elmo, e outros envolvidos, levantou indícios de envolvimento do parlamentar em atividades ilícitas.
Além do elevado volume de emendas, a PF também apontou possíveis irregularidades em uma emenda específica direcionada ao município do irmão, por meio da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf). A investigação revelou que os recursos utilizados para a contratação em Campo Formoso tinham origem em emendas indicadas pelo deputado.
Campo Formoso, com aproximadamente 71 mil habitantes e situada a 412 km de Salvador, é um reduto político de Elmar. Em 2024, ele foi considerado como um possível candidato à presidência da Câmara dos Deputados, indicado por Arthur Lira (PP-AL), mas acabou sendo substituído por Hugo Motta (Republicanos-PB) devido à falta de apoio governamental.
No portal da transparência do governo federal, estão registradas 12 emendas que somam os R$ 21,2 milhões. Os valores das emendas destinadas por Elmar a Campo Formoso aumentaram anualmente. Em 2016, foram cerca de R$ 487 mil, enquanto em 2022, após a posse de seu irmão como prefeito, o valor saltou para R$ 1,4 milhão, atingindo R$ 10 milhões em 2024.
Outras cidades baianas, como Filadélfia e Camaçari, também receberam recursos por meio das emendas individuais de Elmar, embora em quantias menores, com cada uma recebendo cerca de R$ 2 milhões. No total, o deputado enviou R$ 168,2 milhões em emendas individuais entre 2016 e 2024.
Na decisão que autorizou a terceira fase da operação, o ministro Nunes Marques destacou que a análise de celulares apreendidos indicou encontros entre Elmo Nascimento, um superintendente da Codevasf e um representante de uma empresa que venceu uma licitação sob suspeita. A PF afirmou haver indícios de envolvimento do atual prefeito de Campo Formoso, Elmo Aluizio Vieira Nascimento, em delitos investigados.
Além das menções ao irmão, um primo de Elmar, Francisco Nascimento, foi preso na primeira fase da operação, sendo identificado como parte de um grupo criminoso atuante na cidade. A PF descreveu Francisco como um facilitador administrativo que manipulava processos licitatórios para favorecer as empresas do grupo.
Em resposta às questões levantadas, Elmar Nascimento defendeu que a diferença nos valores enviados a Campo Formoso se deve ao maior apoio popular que recebe na cidade, onde sempre obteve muitos votos em suas campanhas. Ele afirmou que é comum que políticos priorizem investimentos em locais onde possuem aliados, como é o caso de Campo Formoso, governada por seu irmão.
Quanto às alegações da PF, o deputado enfatizou que as emendas destinadas à Codevasf eram de iniciativa do relator geral, ressaltando que é natural que parlamentares da Bahia busquem assegurar que os recursos do orçamento sejam distribuídos entre os municípios do estado. Ele destacou que a responsabilidade pela execução e fiscalização das verbas cabe às autoridades competentes e aos órgãos de controle.
A Codevasf, por sua vez, esclareceu que não possui contratos com a empresa mencionada nas investigações, afirmando que mantém convênio com Campo Formoso, e que a responsabilidade pelos processos de contratação cabe ao município.
O município de Campo Formoso não respondeu aos contatos feitos pela coluna.