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Crescimento da força da direita no Congresso eleva expectativas por mudança na política econômica, mas desafios para ajuste fiscal permanecem

•Ilustração gerada por IA

O fortalecimento da direita no Congresso e a vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno das eleições presidenciais ampliaram as possibilidades de uma mudança na política econômica a partir de 2027. No entanto, a transformação dessa força eleitoral em ações concretas de ajuste nas contas públicas ainda depende de decisões que permanecem pouco claras, como a definição de quais despesas devem ser contenidas, quais benefícios podem ser revistos e de que forma negociar medidas que possam contrariar interesses de aliados políticos.

A expectativa gerada por esses fatores tem causado uma reação positiva nos mercados financeiros. Nesta segunda-feira (5), o índice Ibovespa atingiu uma máxima intradiária de 209.500 pontos, superando o recorde de 14 de abril de 2026, que foi de 199.355 pontos. Além disso, o dólar abriu em forte queda, situando-se abaixo de R$ 5, refletindo a antecipação de uma possível mudança na condução da política econômica, embora essa expectativa ainda dependa do resultado do segundo turno e das decisões do próximo governo.

Segundo Felipe Salto, economista-chefe e sócio da Warren Investimentos, o mercado interpreta uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro como um sinal de que o ajuste fiscal poderá ser mais rigoroso, o que se reflete na valorização de ativos. “Se isso é verdadeiro ou não, é outra questão, mas essa é a leitura predominante que orienta os posicionamentos e as decisões do mercado financeiro neste momento”, afirma.

A composição do Congresso também favorece Flávio, caso ele seja eleito, especialmente se a prioridade for a implementação de medidas econômicas. Contudo, Zeina Latif, economista e sócia-diretora da Gibraltar Consulting, destaca que o apoio do Centrão não será incondicional e que será fundamental acompanhar a formação do governo e a agenda de contenção de despesas, que ainda não está suficientemente clara.

Gustavo Cruz, CIO da Sincra, lembra que, após a eleição de 2022, havia uma expectativa de que um Congresso conservador favoreceria pautas econômicas alinhadas ao perfil do Parlamento, mas essa previsão não se confirmou. Para ele, o país continuará distante de avanços econômicos sem uma liderança que consiga puxar esse processo, seja pelo presidente ou por uma agenda mais consistente.

Silvio Cascione, diretor da Eurasia Group no Brasil, avalia que o otimismo do mercado reflete tanto as chances de Flávio quanto a nova composição do Legislativo, que terá 28 senadores do PL a partir de 2027. Ele destaca que há espaço para negociações na contenção de despesas obrigatórias, mesmo em um eventual governo Lula, pois essa estratégia poderia liberar recursos para gastos discricionários, beneficiando ambos os lados.

Contudo, Cascione alerta que uma eventual mudança de foco para a contenção de despesas obrigatórias exige cautela, pois o uso desses recursos pode ser direcionado para novas despesas, o que não necessariamente melhoraria o resultado fiscal. Assim, o mercado avaliará tanto a economia gerada quanto a destinação final desses recursos.

Outro ponto de incerteza é a reforma tributária. Flávio Bolsonaro já manifestou a intenção de suspender sua implementação por um ano, enquanto Daniella Marques, coordenadora de suas propostas econômicas, indicou que a proposta seria ajustar o sistema sem revogá-lo. Felipe Salto questiona a segurança dessa estratégia, levantando dúvidas sobre qual seria o impacto de jogar a reforma aprovada em 2026 na gaveta por um período prolongado.

A discussão sobre a reforma tributária reacende preocupações quanto à possibilidade de aumento de pedidos de exceções e benefícios, o que poderia complicar ainda mais o desenho do sistema. Para Zeina Latif, a prioridade deve ser a contenção de gastos obrigatórios, já que uma reforma que priorize simplificação pode gerar incertezas adicionais para empresas que precisam planejar seus investimentos.

As análises também abordam o papel do resultado eleitoral na percepção da economia. Zeina Latif atribui parte da insatisfação do eleitor ao alto endividamento, agravado por juros elevados. Gustavo Cruz acrescenta que o desemprego, especialmente trabalhos por aplicativos, pode mascarar a real situação financeira do trabalhador, dificultando a compreensão do impacto econômico no voto.

Por sua vez, Felipe Salto discorda de que o desempenho econômico tenha sido determinante para o resultado, destacando que indicadores como inflação e renda estão bons, e que a insatisfação tem raízes mais profundas que ainda precisam ser compreendidas.

Apesar das hipóteses levantadas, o impacto real na política econômica dependerá do segundo turno, momento em que os candidatos terão de esclarecer suas propostas de contenção de despesas, negociações com o Congresso e uso dos recursos públicos. Flávio Bolsonaro precisará demonstrar como pretende obter o apoio dos novos parlamentares, enquanto Lula terá que explicar sua capacidade de negociar uma agenda compatível com um Legislativo mais distante de seu governo. O sucesso de qualquer estratégia dependerá dessas escolhas e do alinhamento político que será construído nas próximas semanas.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade