Dados divulgados por uma pesquisa realizada pela empresa de negociação financeira Bravo revelam que as dívidas dos consumidores brasileiros que recorrem a operações de crédito e renegociações equivalem, em média, a 6,3 vezes a sua renda bruta mensal. A análise, que considerou uma base de clientes com renda média de R$ 4.200 por mês e débitos totais de aproximadamente R$ 24.289, evidencia um elevado grau de endividamento na classe média do país.
Segundo o levantamento, o volume de compromissos financeiros também é expressivo, com cada cliente apresentando, em média, três dívidas ativas. Além disso, 41% dos entrevistados possuem quatro ou mais débitos, incluindo operações de cartão de crédito, empréstimos pessoais, financiamentos de veículos e outras modalidades de crédito. O estudo aponta ainda que, em 20% dos casos analisados, o valor total devido ultrapassa R$ 50 mil, enquanto a base de dados da Bravo inclui consumidores com dívidas superiores a R$ 400 mil, indicando uma ampla variação no perfil de endividamento.
Os dados foram coletados entre clientes que concluíram programas de negociação financeira promovidos pela própria Bravo, o que reforça a relevância do levantamento ao mostrar o perfil de quem busca renegociar suas dívidas. Entre esses consumidores, 61% possuem ensino superior completo ou pós-graduação, o que demonstra que o endividamento não está restrito às camadas de menor escolaridade, atingindo também indivíduos com maior nível de formação acadêmica.
A divulgação da pesquisa ocorre em um momento de maior preocupação do mercado financeiro com o aumento da inadimplência. No dia anterior, o Banco Central do Brasil anunciou que a inadimplência da carteira de crédito do Sistema Financeiro Nacional atingiu um novo recorde, chegando a 5,04% em agosto, um aumento de 0,1 ponto percentual em relação ao mês anterior e de 0,9 ponto em 12 meses. Em julho, o índice havia atingido 4,9%, o que até então era o maior patamar registrado.
Para Luiz Fernando Zanqueta, head de finanças da Bravo, o acúmulo de múltiplos compromissos financeiros pode comprometer a saúde financeira do consumidor, mesmo aquele que possui uma renda regular. Ele explica que, embora seja possível administrar uma dívida isoladamente, a situação se torna mais complexa quando o indivíduo enfrenta várias parcelas e credores simultaneamente. Essa combinação pode fazer com que uma renda que parecia suficiente deixe de cobrir todos os compromissos assumidos.
Zanqueta destaca ainda que, diante do aumento do volume de dívidas, muitos consumidores recorrem ao uso de crédito para manter o pagamento de dívidas anteriores, o que tende a elevar ainda mais o montante de débitos. Segundo ele, esse comportamento indica um uso inadequado do crédito, que passa de uma ferramenta de planejamento financeiro para uma estratégia de sustentação do orçamento, resultando na formação de uma espiral de endividamento difícil de controlar.
O especialista também reforça que o nível de escolaridade, embora importante, não é suficiente para garantir a capacidade de organização financeira do indivíduo. Ele afirma que fatores como renda disponível, custo do crédito, quantidade de compromissos e capacidade de planejamento são determinantes para uma gestão financeira eficiente. Assim, mesmo pessoas com formação superior podem enfrentar dificuldades na administração de suas finanças se não houver uma adequada compreensão e controle de seus gastos e dívidas.
Em síntese, o estudo da Bravo evidencia um cenário de endividamento elevado entre os consumidores de classe média, reforçando a necessidade de maior atenção à educação financeira e ao planejamento financeiro pessoal, especialmente em um contexto de crescimento da inadimplência no sistema financeiro nacional.