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ONU e Semana do Clima reforçam prioridade de garantir segurança energética e alimentar em meio a tensões geopolíticas

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e a Semana do Clima, realizadas simultaneamente em Nova York, evidenciaram a crescente convergência entre os debates sobre segurança global e ações climáticas. Enquanto a primeira buscava respostas diplomáticas para um cenário mundial marcado por conflitos e instabilidades, a segunda tinha como foco acelerar a implementação da agenda climática internacional. No entanto, ao final da semana, uma questão emergiu com maior urgência: como assegurar o fornecimento de energia, alimentos e segurança física diante de um contexto de guerra, cadeias produtivas vulneráveis e demanda crescente por eletricidade.

A relação entre segurança alimentar e energética se mostra cada vez mais estreita, uma vez que a produção de alimentos depende de preços de energia acessíveis, fertilizantes e condições climáticas estáveis. Por sua vez, a segurança energética está vinculada à infraestrutura de redes elétricas, avanços tecnológicos e rotas comerciais seguras. A continuidade de secas, enchentes e ondas de calor extremo ameaça interromper essas cadeias, dificultando a manutenção da produção e da infraestrutura essenciais para o abastecimento global.

O cenário de instabilidade diplomática ficou evidente nas negociações entre Estados Unidos e Irã, especialmente em relação ao Estreito de Ormuz, uma via estratégica por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial antes da escalada do conflito. A expectativa de um acordo que permitisse a reabertura do estreito foi frustrada quando a proposta apresentada pelos EUA foi rejeitada pelo governo iraniano. Como consequência, o preço do petróleo Brent disparou na abertura do dia 28 de agosto, chegando a fechar a US$ 105,28 por barril, uma alta de 0,92% no contrato de novembro, refletindo a incerteza sobre o fluxo de petróleo pelo Oriente Médio.

Antes do conflito, aproximadamente um quinto do petróleo mundial era transportado pelo Estreito de Ormuz, o que demonstra a sensibilidade do mercado energético às tensões diplomáticas. Essa oscilação impacta diretamente as expectativas de inflação global e os mercados financeiros. Na Bolsa de Nova York, as ações encerraram o pregão em queda, enquanto o dólar se fortaleceu frente a moedas estrangeiras, refletindo a combinação de tensão geopolítica, preços elevados do petróleo e aumento dos juros internacionais.

No Brasil, o impacto da crise de Ormuz se traduziu na valorização do dólar, que fechou a R$ 5,225, uma alta de 0,85%, além de uma queda no Ibovespa, em um pregão marcado por volatilidade. Além do peso do impasse diplomático, o mercado brasileiro também reagiu às recentes pesquisas eleitorais e às expectativas de inflação e juros, o que potencializa a pressão sobre câmbio, custos de frete, combustíveis e insumos essenciais para a economia.

O episódio reforça a importância de uma resposta coordenada da comunidade internacional, especialmente por meio da Organização Mundial do Comércio (OMC), que acompanha medidas adotadas desde fevereiro para mitigar os efeitos dessas tensões sobre energia, fertilizantes e alimentos. A diretora-geral da entidade, Ngozi Okonjo-Iweala, tem defendido a diversificação das cadeias de suprimentos, o fortalecimento do comércio aberto e a necessidade de uma coordenação global mais efetiva. Segundo ela, reduzir a dependência excessiva de rotas específicas e estabelecer regras confiáveis são passos essenciais para garantir o fluxo de insumos essenciais em momentos de crise.

No contexto das ações climáticas, a Semana do Clima trouxe propostas concretas, como a iniciativa “35 by 35”, apresentada inicialmente em junho pelo presidente designado da COP31, Murat Kurum. A proposta visa elevar de pouco mais de 20% para 35% a parcela do consumo global de energia final atendida por eletricidade até 2035, o que exige uma eletrificação massiva de transportes, edifícios e indústrias. Ainda que não seja um compromisso formal, essa meta integra a Agenda de Ação da COP31, que também propõe reduzir pela metade o crescimento da geração de resíduos até 2035 e diminuir em pelo menos 25% a intensidade do consumo de energia em edifícios, promovendo cidades mais eficientes e resilientes.

A integração dessas ações é fundamental para garantir a segurança energética e alimentar, especialmente diante do aumento do consumo de eletricidade para suportar a expansão da inteligência artificial e centros de dados. Segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo elétrico desses centros cresceu 17% em 2025 e pode dobrar até 2030, impulsionado por investimentos superiores a US$ 400 bilhões por cinco grandes empresas de tecnologia em 2025. A questão central é quais países terão condições de oferecer energia confiável e acessível para suportar essa expansão, sem transferir os custos às famílias e ao setor produtivo.

A sucessão de António Guterres na liderança da ONU representa uma oportunidade de colocar novamente no centro do debate a segurança energética, alimentar e climática. Entre os nomes em discussão para assumir o cargo de secretário-geral estão Rebeca Grynspan, da Costa Rica, Carolyn Rodrigues-Birkett, da Guiana, e María Fernanda Espinosa, do Equador. Uma liderança latino-americana, com experiência e perspectiva do Sul Global, poderia contribuir para fortalecer as negociações internacionais e transformar disputas em acordos que atendam aos interesses globais.

Para o Brasil, essa conjuntura apresenta uma oportunidade de ampliar sua capacidade produtiva e diversificar fornecedores de fertilizantes, oferecer energia mais competitiva, além de estruturar infraestrutura para centros de dados e soluções para agricultura e cidades mais resilientes. Contudo, esses avanços dependem de investimentos, acesso a mercados e regras previsíveis, com o diferencial de integrar cadeias globais com maior tecnologia, produtividade e valor agregado. Ainda assim, duas questões permanecem à margem do debate principal: a preparação de pessoas para a automação e a criação de empregos qualificados, além de transformar a resiliência climática em uma estratégia econômica capaz de reduzir perdas, proteger seguros e créditos, e evitar escassez de insumos essenciais. Um relatório apresentado na Semana do Clima estima que a transição para uma economia mais resiliente pode gerar até 530 milhões de empregos líquidos adicionais na próxima década, sendo 375 milhões o número central, condicionado a investimentos e qualificação. Assim, liderança, empregos e resiliência emergem como elementos essenciais para transformar os anúncios feitos em Nova York em melhorias concretas na vida das pessoas.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade