* Este artigo é de autoria de Mark Nielsen, da Universidade de Queensland, e foi publicado na plataforma The Conversation Brasil.
Um filhote de macaco conhecido como Punch se tornou um fenômeno nas redes sociais devido à sua tocante busca por afeto. Abandonado pela mãe e rejeitado pelo grupo, os cuidadores do Zoológico da Cidade de Ichikawa, no Japão, ofereceram a Punch um orangotango de pelúcia como um substituto materno. Vídeos do macaco se agarrando ao brinquedo ganharam o mundo.
Entretanto, o apego de Punch ao seu companheiro inanimado vai além de um simples vídeo emocionante. Ele remete a uma famosa série de experimentos psicológicos realizados na década de 1950 pelo pesquisador americano Harry Harlow.
Os resultados dessas experiências sustentam os princípios fundamentais da teoria do apego, que enfatiza a importância do vínculo entre pais e filhos para o desenvolvimento saudável das crianças. Harlow separou filhotes de macacos rhesus de suas mães e os criou em um ambiente onde tinham duas “mães” substitutas: uma feita de arame, que oferecia comida e água, e outra, uma boneca macia, envolta em tecido felpudo, que não fornecia alimento, mas era aconchegante.
Dessa forma, havia uma opção que oferecia conforto, mas carecia de sustento, e outra que, embora fornecesse alimento, era fria e dura. Essas experiências surgiram como uma crítica ao behaviorismo, a teoria predominante na época, que afirmava que os laços afetivos se formavam exclusivamente em função da satisfação das necessidades biológicas, como alimentação e abrigo.
Harlow desafiou essa visão, defendendo que o amor e o cuidado são essenciais para o desenvolvimento de vínculos afetivos, e não apenas a nutrição física. Contrariando a expectativa de que os filhotes passariam o tempo com a “mãe” de arame, os macacos preferiram passar mais horas agarrados à “mãe” de tecido felpudo.
As descobertas de Harlow foram revolucionárias, pois reverteram a visão behaviorista que dominava a época, a qual afirmava que os primatas, incluindo os humanos, se relacionavam por ciclos de recompensa e punição, formando laços apenas com aqueles que atendiam suas necessidades básicas. O conceito de alimento emocional não se encaixava no paradigma behaviorista, e as experiências de Harlow mudaram essa perspectiva.
A preferência dos macacos pelo conforto emocional, simbolizado pela “mãe” de tecido, fundamentou a teoria do apego. Essa teoria sugere que um desenvolvimento infantil saudável ocorre quando a criança está “seguramente apegada” ao cuidador, que oferece não apenas nutrição, mas também amor e atenção. O apego inseguro se forma em contextos de frieza, distanciamento ou abuso por parte dos cuidadores.
Assim como os macacos rhesus, um bebê humano pode receber toda a nutrição necessária, mas se não houver amor e carinho, o vínculo afetivo não se estabelecerá. Embora o zoológico não estivesse conduzindo um experimento, a situação de Punch reflete os resultados da pesquisa controlada de Harlow em um ambiente natural. Assim como os macacos de Harlow, Punch formou um apego ao seu companheiro de pelúcia.
Embora na situação do zoológico não tenhamos uma comparação com uma opção rigorosa que forneça nutrição física, está claro que Punch buscava um espaço acolhedor e seguro, e isso é exatamente o que a boneca lhe proporcionou. Atualmente, a maioria das pessoas reconhece que os primatas têm direitos que, em alguns aspectos, são equivalentes aos direitos humanos. Hoje, veríamos as experiências de Harlow como cruéis e desumanas; ninguém separaria um bebê humano de sua mãe para realizar um experimento, e o mesmo deve se aplicar aos primatas.
É fascinante que as pessoas ainda se sintam tão intrigadas por esse paralelo com um experimento de mais de 70 anos atrás. Punch, o macaco, não é apenas uma nova celebridade da internet, mas também um lembrete vital da importância do alimento emocional. Todos nós necessitamos de ambientes acolhedores e seguros. O amor e o carinho são fundamentais para nosso bem-estar, muito além das necessidades físicas.
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