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Pesquisa revela modificações genéticas em ursos-polares diante do aumento das temperaturas

Paul Souders/Getty Images

O derretimento acelerado do gelo marinho, uma das consequências mais evidentes das mudanças climáticas, começa a afetar também o nível genético dos ursos-polares. Um estudo divulgado em 12 de dezembro na revista Mobile DNA identificou mudanças no DNA de uma população localizada no sul da Groenlândia, a parte mais quente do Ártico, sugerindo que esses animais estão reagindo biologicamente ao aumento das temperaturas.

A pesquisa examinou o material genético de 17 ursos-polares adultos, sendo 12 deles do nordeste da Groenlândia, uma área com clima mais frio e estável, e cinco do sudeste, que tem apresentado temperaturas mais elevadas e menor cobertura de gelo. Ao comparar os dois grupos, os cientistas notaram uma atividade aumentada dos chamados “genes saltadores” nos ursos da região mais quente.

Esses segmentos de DNA, conhecidos como transposons, têm a habilidade de se mover dentro do genoma e impactar a ativação ou inibição de outros genes. De acordo com os pesquisadores, o aumento dessa atividade estaria relacionado ao estresse térmico causado pelo aquecimento global.

A bióloga Morgana Bruno, coordenadora do curso de Ciências Biológicas da Universidade Católica de Brasília (UCB), destaca que a identificação desse tipo de alteração genética sugere que os ursos estão respondendo ao ambiente, mas isso não implica necessariamente que estejam se adaptando de maneira evolutiva. “Na prática, isso é visto como um sinal dos estágios iniciais de adaptação biológica. O DNA sofre alterações naturais ao longo das eras, mas o estresse ambiental gerado pelo aumento da temperatura global está acelerando esse processo de reescrita genética”, afirma.

Ela ainda explica que os pesquisadores encontraram uma maior frequência de variantes genéticas associadas ao metabolismo, ao estresse térmico, ao uso de gordura e até ao comportamento em animais que vivem em ambientes mais quentes. Apesar disso, é necessário ter cautela ao interpretar esses resultados.

A análise de outros especialistas, como o professor Carlos Frederico Martins Menck, do departamento de microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e membro da Academia Brasileira de Ciências, aponta que as situações de estresse ambiental frequentemente aumentam a atividade de elementos móveis no DNA, o que nem sempre é benéfico para o organismo. Ele observa que o aumento da temperatura no sul da Groenlândia pode estar provocando uma resposta celular que resulta em maior transposição genética.

Embora essas alterações genéticas possam indicar alguma capacidade de resposta ao estresse, os especialistas alertam que a velocidade do aquecimento global representa um grande desafio para espécies como o urso-polar, que têm um ciclo reprodutivo lento e dependem fortemente do gelo marinho para a caça.

O pesquisador Ivan Ezhov, do Zoológico de Kazan, na Rússia, ressalta que mesmo essas respostas biológicas têm limites em face da rapidez do aquecimento global. Ele explica que os ecossistemas funcionam de maneira interconectada, e as mudanças em uma única espécie podem desencadear efeitos em cadeia. “Se uma espécie desaparece, outra tende a ocupar seu lugar, o que inevitavelmente afeta o equilíbrio do ecossistema e da região como um todo”, afirma.

Projeções indicam que, se as emissões de carbono não forem reduzidas, cerca de dois terços da população global de ursos-polares pode desaparecer até 2050, correndo o risco de extinção funcional até o final do século.

Os resultados da pesquisa são valiosos para direcionar estratégias de conservação, uma vez que indicam quais populações estão mais suscetíveis às mudanças climáticas. Segundo Morgana, estudos genéticos possibilitam mapear grupos com menor diversidade genética e maior dependência do gelo marinho, que necessitam de atenção prioritária. “Essas informações são cruciais para definir onde concentrar esforços de proteção, preservar áreas com maior variabilidade genética e garantir rotas de migração e acesso a alimento”, conclui. Contudo, ela enfatiza que nenhuma resposta biológica isolada será suficiente sem ações globais destinadas a mitigar o aquecimento do planeta.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade