*Este artigo foi elaborado pela professora Vera Lucia Messias Fialho Capellini, diretora da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e publicado na plataforma The Conversation Brasil.
Estudantes superdotados são aqueles que demonstram desempenho excepcional em áreas como criatividade, pensamento inovador e rapidez na aprendizagem. Estima-se que de 3% a 5% da população possua altas habilidades ou superdotação (AH/SD, sigla em português), independentemente de fatores como gênero, classe social ou etnia.
No Brasil, apenas entre 0,5% e 2% dos alunos são oficialmente reconhecidos como superdotados, um número significativamente inferior à prevalência observada globalmente. Isso se deve em grande parte à falta de recursos, à formação inadequada de docentes e às lacunas nos programas de enriquecimento curricular, além de preconceitos relacionados a gênero e raça.
A ausência de identificação e atendimento apropriado para esses indivíduos representa um grave problema no contexto educacional brasileiro, conforme apontam os dados do último Censo Escolar.
Pesquisas mostram que jovens com AH/SD podem enfrentar desafios sociais, como isolamento e discriminação, mesmo enquanto demonstram qualidades positivas, como liderança e cooperação. Muitos mitos sobre autossuficiência também dificultam sua identificação. Um deles é a ideia de que esses estudantes sempre se destacam em todas as disciplinas ou não enfrentam dificuldades emocionais, o que não reflete a realidade.
Na prática, o reconhecimento desses jovens é permeado por diversos obstáculos, mesmo que suas características sejam amplamente estudadas no Brasil. Os instrumentos de avaliação são escassos e de difícil acesso, e professores e gestores frequentemente carecem de formação especializada, além de não haver diretrizes unificadas que direcionem esse processo de maneira consistente.
Para enfrentar essas barreiras, há mais de dez anos adotamos uma metodologia de avaliação multimodal no campus de Bauru da Universidade Estadual Paulista, localizada no interior de São Paulo. Utilizamos testes de QI (quociente de inteligência, um indicador desenvolvido por Alfred Binet no início do século XX) juntamente com outros instrumentos para uma avaliação mais abrangente, que inclui a aplicação do Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ), um instrumento de triagem que avalia sintomas emocionais, problemas de comportamento, hiperatividade, dificuldades de interação social e comportamento pró-social, além da observação direta por pais e professores.
Uma das consequências da falta de identificação de jovens com AH/SD é a limitação de seu acesso a oportunidades de enriquecimento curricular por meio de um atendimento educacional especializado. Quando conseguem participar de atividades complementares, o processo frequentemente reflete a falta de equidade de gênero e raça, perpetuando o machismo e o racismo estrutural na sociedade. Essa combinação de barreiras institucionais e preconceitos de seleção resulta na menor inclusão de meninas e estudantes de grupos étnico-raciais sub-representados, favorecendo meninos brancos em detrimento de jovens pretos e pardos, acentuando desigualdades históricas que comprometem o potencial de talentos diversos.
Outro ponto crucial em relação aos jovens com AH/SD é que questões emocionais (como ansiedade, tristeza, baixa autoestima e irritabilidade) e dificuldades de interação (como rejeição, conflitos e isolamento) nem sempre são reconhecidas a partir da autoavaliação. Os relatos de pais e professores também não são sempre confiáveis nesse aspecto, o que significa que não podem ser a única referência.
Em Bauru, implementamos diversas ações para apoiar estudantes com AH/SD, obtendo resultados positivos. A iniciativa “Da identificação de estudantes com indicadores de AH/SD ao enriquecimento curricular” atualmente atende mais de 300 estudantes da cidade e região, encaminhados por famílias, escolas e profissionais de saúde.
O enriquecimento curricular, vinculado a cursos de extensão, é uma proposta interdisciplinar que oferece experiências tanto dentro quanto fora da sala de aula, promovendo a sociabilidade e reduzindo o isolamento.
Em um estudo recente, realizado ao longo de 2024 e publicado em janeiro de 2025 no periódico internacional “Social Skills in Gifted Students”, envolvemos 17 estudantes com idades entre 7 e 15 anos em atividades de enriquecimento que incluíram teoria musical, robótica, aulas de inglês, prática de esportes, visitas a teatros, zoológicos e ao Observatório Didático de Astronomia. Os resultados mostraram uma diminuição de sintomas emocionais (de 2 para 0) e de problemas com colegas (de 3 para 1), conforme a autoavaliação dos estudantes.
Adicionalmente, para promover a sociabilidade e evitar o foco excessivo em interesses individuais, orientamos os pais a limitarem o tempo que os filhos passam sozinhos com tecnologias (como smartphones, tablets, computadores e jogos eletrônicos) e incentivamos a participação em esportes e aulas de línguas, estimulando a interação com os pares.
Novas iniciativas também foram implementadas. Em 2019, lançamos o programa Escola de Talentos, vinculado ao Instituto Principia em São Paulo. Destinado a estudantes do ensino médio com desempenho destacado em olimpíadas escolares, 70% dos participantes se enquadram no perfil de AH/SD. O programa oferece atividades híbridas, reuniões online e encontros presenciais, focando na colaboração e no desenvolvimento de projetos de pesquisa orientados por professores universitários.
Infelizmente, muitos educadores no país ainda desconhecem a avaliação multimodal e a existência de leis que asseguram que estudantes com AH/SD sejam atendidos por programas de educação especial.
A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (PNEEPI, de 2011) reconhece as AH/SD como prioridade, assim como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996. Contudo, a aplicação dessas diretrizes ainda é desigual entre estados e municípios, refletindo disparidades na formação inicial e contínua de professores, além da oferta de Atendimento Educacional Especializado (AEE).
Nossa principal recomendação tem sido investir tanto na formação inicial quanto na contínua de professores, a fim de transformar a realidade dos indivíduos com AH/SD. A literatura internacional ressalta a necessidade de formações contínuas que estejam integradas ao cotidiano escolar, ao invés de cursos pontuais, para garantir que os educadores estejam capacitados para identificar e atender essas crianças.
É também essencial monitorar e corrigir desigualdades. Mesmo quando ações de enriquecimento são oferecidas, persistem preconceitos de gênero e raça: meninas e mulheres pretas e pardas, por exemplo, ainda enfrentam desvantagens na seleção para atividades complementares, perpetuando o racismo estrutural e o machismo em nossa sociedade.
Em uma pesquisa recente, analisei 155 estudantes indicados por professores como potenciais casos de AH/SD no ensino fundamental de escolas estaduais em Bauru e Lençóis Paulista, no interior de São Paulo. Desses, 55 eram meninas, mas apenas duas se autodeclararam negras ou pardas (uma preta e uma parda), o que evidencia não apenas a subnotificação de talentos negros, mas também os preconceitos raciais e de gênero na indicação; entre os indicados, apenas três meninos se autodeclararam negros ou pardos (dois pretos e um pardo).
Iniciado no segundo semestre de 2024 e finalizado em maio de 2025, o projeto agora avança para um novo levantamento com 640 estudantes das mesmas escolas, cuja correção de testes pode revelar ainda mais casos, especialmente entre estudantes negros e meninas. Esse processo, que emprega múltiplos instrumentos padronizados e requer tempo e cuidado, enfatiza a urgência de políticas escolares inclusivas, antirracistas e com uma perspectiva de gênero, capazes de reconhecer, valorizar e apoiar talentos diversos.
Para transformar a realidade desses jovens com AH/SD, é fundamental aumentar o investimento governamental em pesquisas e programas educacionais que abordem a identificação, o atendimento desses estudantes e a formação de professores, além de promover a sensibilização da sociedade. Sem essas medidas, continuaremos a desperdiçar talentos que poderiam contribuir de maneira criativa e inovadora para os desafios contemporâneos.
Portanto, reconhecer, valorizar e fornecer o devido suporte a esses estudantes é um compromisso urgente e inadiável da educação brasileira.
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