Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Plymouth, na Inglaterra, revelou que entre 2003 e 2022, 21% dos oceanos apresentaram um escurecimento, o que equivale a mais de 75 milhões de quilômetros quadrados, área que corresponde a cerca de quatro vezes a dimensão da América do Sul. Esse fenômeno ocorreu tanto em regiões costeiras quanto em águas profundas no alto-mar. O estudo foi divulgado na revista Global Change Biology na última terça-feira (27/5).
Os pesquisadores indicam que a diminuição da luz afeta a zona fótica, a camada superficial dos oceanos onde a luz solar e lunar é absorvida. Essa região é vital para a fotossíntese, um processo fundamental para os fitoplânctons, que servem de base alimentar para grande parte do ecossistema marinho. A zona fótica abriga 90% da vida oceânica e é crucial para a sobrevivência e reprodução de diversas espécies.
Os dados revelam que, em 9% do oceano, a profundidade da zona fótica caiu mais de 50 metros, cobrindo uma área superior a 32 milhões de quilômetros quadrados. Em 2,6% dessa região, a perda foi ainda mais acentuada, com uma redução de mais de 100 metros na camada de luz.
“Se a zona fótica está sendo comprimida em cerca de 50 metros em vastas áreas do oceano, as criaturas que dependem de luz serão obrigadas a se aproximar da superfície, onde enfrentarão competição por alimento e outros recursos. Isso pode ocasionar alterações significativas em todo o ecossistema marinho”, alerta Tim Smyth, um dos autores do estudo, em comunicado à imprensa.
Por outro lado, os pesquisadores também identificaram um clareamento em aproximadamente 10% do oceano no mesmo período, possivelmente devido a mudanças nas comunidades de fitoplânctons e nas correntes oceânicas.
As causas exatas do escurecimento ainda não são completamente compreendidas, mas algumas teorias sugerem que atividades humanas e mudanças climáticas estão entre os fatores predominantes. Nas áreas costeiras, acredita-se que o escurecimento está associado ao escoamento agrícola, chuvas intensas e ao aumento de sedimentos, nutrientes e matéria orgânica, que reduzem a transparência da água. Já em mar aberto, a hipótese é que o aumento da temperatura da superfície e mudanças nas comunidades de plânctons tenham afetado a penetração da luz, contribuindo para o escurecimento.
Esse fenômeno também impacta organismos marinhos que se adaptaram a ambientes com baixa luminosidade, como o copépode Calanus, típico do Oceano Atlântico. Durante as noites escuras, ele sobe à superfície guiado pela luz da Lua para se alimentar de fitoplânctons, enquanto em períodos mais claros, ele desce para camadas mais profundas a fim de evitar predadores. Alterações na disponibilidade de luz podem desregular seu comportamento e, consequentemente, afetar a cadeia alimentar marinha.
As áreas que sofreram as mudanças mais drásticas na coloração do mar incluem o topo da Corrente do Golfo e regiões ao redor do Ártico e da Antártida.
“Nossos achados indicam que tais alterações provocam um escurecimento generalizado, limitando a quantidade de oceano disponível para os organismos que dependem da luz solar e lunar para a sua sobrevivência e reprodução. Também dependemos do oceano e de suas zonas fóticas para o ar que respiramos, os peixes que consumimos, nossa capacidade de lidar com as mudanças climáticas e para a saúde e bem-estar do planeta. Considerando tudo isso, nossas descobertas representam um motivo real de preocupação”, enfatiza Thomas Davies, autor principal do estudo.
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