Um brasileiro realizou uma jornada de grande magnitude ao cruzar o Oceano Atlântico remando sozinho, partindo da cidade portuária de Lüderitz, na Namíbia, e chegando ao Brasil após 136 dias de navegação. Raphael Garcia, de 34 anos, que atualmente reside na Nova Zelândia, decidiu repetir o feito do navegador Amyr Klink, que em 1982 também partiu daquele mesmo porto com o objetivo de atravessar o oceano a remo, uma missão considerada quase impossível. Garcia, engenheiro elétrico de formação, dedicou-se a essa empreitada após ler o livro de Klink, “Cem dias entre céu e mar”, publicado em 1982, e passou por um intenso período de preparação física e técnica para realizar a travessia.
Durante dois anos, Raphael treinou arduamente, adotando uma rotina de autoavaliação semanal para acompanhar seu progresso. Ele enfrentou diversas adversidades, incluindo três lesões decorrentes de partidas de futebol que comprometeram sua musculatura, levando-o a ficar nove meses sem treinar remo. Mesmo assim, conseguiu consolidar uma preparação sólida, que o permitiu enfrentar as dificuldades do oceano. A viagem, realizada em um pequeno barco de seis metros de comprimento, foi marcada por desafios como encontros inesperados com navios de grande porte, uma ameaça constante na rota. Para evitar colisões, Garcia precisou monitorar constantemente o horizonte, especialmente após consertar seu sistema de comunicação marítima, o AIS, que permitia a troca de informações entre embarcações.
No final da travessia, Raphael enfrentou uma tempestade com ondas de até cinco metros, momento em que precisou agir rapidamente para evitar uma colisão com um navio que se aproximava a 300 metros de distância. Usando um rádio VHF, conseguiu alertar o capitão da embarcação maior, evitando um acidente potencialmente fatal. O esforço para manter a rota correta envolveu estudo das correntes marítimas e correções diárias via GPS, sobretudo durante as noites em que ficava à deriva. Garcia nunca cogitou solicitar resgate, embora tenha enfrentado momentos de grande tensão logo no início da viagem, quando uma tempestade o desviou 150 quilômetros de sua rota prevista, obrigando-o a lutar contra as condições adversas por quatro dias para retomar o percurso.
A dieta de Raphael foi outro aspecto desafiador, devido à sua condição de saúde, pois possui apenas um rim e tem tendência a desenvolver pedras nesse órgão. Para minimizar riscos, optou por alimentos desidratados com baixo teor de sódio, embora essa escolha tenha limitado suas opções alimentares, tornando suas refeições bastante repetitivas ao longo de quase meio ano de travessia. Ao chegar em Salvador, ao final do percurso, Garcia foi recebido por Amyr Klink, que acompanhava sua chegada. Apesar do cansaço e do abatimento, o brasileiro sentiu uma grande satisfação por ter concluído a missão, compreendendo melhor as razões pelas quais Klink optou por não repetir a viagem. Sua experiência demonstra o grau de resistência, preparação e determinação necessários para realizar uma travessia oceânica dessa magnitude, além de evidenciar os riscos e as dificuldades enfrentadas por quem decide desafiar os limites humanos em mar aberto.