Na última sexta-feira (16/5), o Brasil registrou um caso de gripe aviária em uma granja comercial localizada no Rio Grande do Sul, levando a vários países a suspenderem a importação de frango brasileiro. Essa situação gerou preocupação entre os consumidores brasileiros em relação aos potenciais impactos nos preços da carne no mercado interno.
De acordo com Fernando Iglesias, coordenador de mercados da consultoria Safras & Mercado, a oferta de carne de frango no Brasil deve aumentar, o que pode resultar em uma possível queda nos preços para o consumidor. Ele acredita que o país continua a ser a principal fonte de fornecimento de carne de frango no mundo, e essa realidade não deve se alterar com a atual crise da gripe aviária. “A gripe aviária não é uma ocorrência comum na avicultura brasileira. Trata-se de um incidente isolado. O Brasil adota rigorosas medidas sanitárias para prevenir a recorrência desse tipo de problema”, comenta Iglesias.
O vírus H5N1, associado à gripe aviária, é frequentemente encontrado em aves, mas também pode afetar mamíferos. Embora a gripe possa atingir aves domésticas, como galinhas, ela também pode afetar animais selvagens.
O advogado internacionalista e presidente do Instituto Brasileiro de Direito Estrangeiro e Comparado (IBDESC), Julian Henrique Dias Rodrigues, observa que a suspensão das importações pode resultar em um excedente de oferta no mercado interno, o que pode pressionar os preços para baixo no curto prazo. “Entretanto, essa redução pode ser temporária. Se a suspensão se prolongar ou se outros países adotarem medidas semelhantes, os produtores poderão ser forçados a ajustar seus preços para evitar prejuízos”, explica Rodrigues.
Dados da Secretaria de Comércio e Relações Internacionais (SCRI) indicam que 33% da produção de frango no Brasil é destinada ao mercado externo. Até o momento, Argentina, China, União Europeia e México anunciaram a suspensão da importação de frango brasileiro.
Rodrigues alerta que, embora exista um “risco reputacional, mas controlável” para o Brasil no cenário internacional, a crise sanitária revela uma vulnerabilidade significativa. “O Brasil ainda é percebido como um fornecedor confiável em muitos mercados devido à sua estrutura produtiva e histórico, mas a vigilância em relação aos aspectos sanitários não tem acompanhado esse padrão”, afirma.
O internacionalista destaca que países como China e a União Europeia agem motivados por “interesses geopolíticos e protecionismo disfarçados de precaução”, exigindo maior transparência e controle técnico do Brasil para evitar embargos.
Ele também ressalta que a desconfiança internacional pode ter consequências práticas, mesmo diante de um único caso isolado de gripe aviária. “A resposta da China e da UE, que ignoraram protocolos e impuseram um embargo completo, demonstra que a confiança externa não é garantida”, observa.
Rodrigues acredita que o Brasil precisará investir tempo e recursos na reconstrução de sua imagem sanitária, enquanto os consumidores sentirão os efeitos em duas etapas distintas.
Vale mencionar que esta é a segunda vez em menos de um ano que a avicultura no Rio Grande do Sul enfrenta uma crise. Em julho de 2024, um surto da doença de Newcastle foi confirmado em Anta Gorda (RS), levando o governo a suspender temporariamente a exportação de carne de aves para 44 países após a identificação do foco viral.
O Ministério da Agricultura e Pecuária efetuou uma investigação epidemiológica que confirmou em julho de 2024 o encerramento do surto de doença de Newcastle no Rio Grande do Sul, e a análise realizada não encontrou sinais clínicos compatíveis com a doença na área de vigilância.
A gripe aviária, uma doença viral altamente contagiosa, afeta principalmente aves silvestres e domésticas, mas também pode afetar humanos, embora o risco seja considerado baixo. Os principais sintomas em aves incluem dificuldade respiratória, secreção nasal ou ocular, espirros, descoordenação motora, torcicolo, diarreia e alta mortalidade.
Qualquer suspeita de gripe aviária que envolva sinais respiratórios, neurológicos ou mortalidade repentina e elevada em aves deve ser imediatamente comunicada à Secretaria da Agricultura através das Inspetorias de Defesa Agropecuária.