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Wagner Moura brilha em sua performance mais impressionante em ‘O Agente Secreto’

Desde a cena de abertura de “O Agente Secreto”, uma obra-prima dirigida por Kleber Mendonça Filho, somos cativados. Em um posto de gasolina à beira da estrada, Marcelo (Wagner Moura) abastece seu fusca. A poucos passos dali, um corpo coberto com papelão aguarda a remoção, uma espera que, em plena época do carnaval, promete ser longa.

O cenário, que remete a um mundo cruel, é intercalado com um humor ácido, mas logo essa atmosfera cede lugar a uma sensação constante de impotência e perigo quando uma viatura policial se aproxima. Não para tratar do falecido, mas para extorquir algo do viajante exausto. A mudança de tom é abrupta, e a tensão é palpável, refletindo a paranoia daquela época. Este é o Brasil dos anos 1970, e essa é apenas a introdução à narrativa de “O Agente Secreto”.

Essa abertura, que Kleber já tinha em mente antes mesmo de começar a escrever o roteiro, encapsula perfeitamente a forma como o filme se desenrolará, além de evidenciar a meticulosa atenção aos detalhes, ao desenvolvimento de personagens e à criação de um mundo crível. Cada figura em “O Agente Secreto”, por menor que seja, é elaborada com o mesmo esmero, dirigida com precisão e interpretada com intensidade. É verdadeiramente impressionante!

Na liderança do elenco, Wagner Moura entrega uma performance que pode ser considerada a mais marcante de sua carreira. Retornando a sua língua materna após mais de dez anos atuando em projetos fora do país, o ator baiano apresenta um desempenho mais contido e sutil, capturando a essência de um país em um momento de crise. Sua interpretação generosa permite que todo o elenco brilhe, resultando em personagens que se revelam completos.

“O Agente Secreto” narra o retorno de Marcelo ao Recife com uma missão que parece simples: buscar seu filho, que foi criado pelos avós por razões que o filme revela gradualmente, conseguir novas identidades e deixar o país em exílio – uma decisão comum entre muitos brasileiros durante os anos de repressão. O empresário corrupto responsável por sua queda não demora a colocar um preço em sua cabeça e enviar uma dupla de assassinos para eliminá-lo.

Em torno dessa trama, Kleber Mendonça traduz de maneira notável um sentimento profundo. “O Agente Secreto” é um filme político que retrata a opressão sem nunca pronunciar a palavra “ditadura”. Longe de cenas de militares furiosos ou porões de tortura, ele apresenta um tipo diferente de horror: o cotidiano permeado pela paranoia, a vida marcada por palavras cautelosas, os escroques que prosperaram sob o regime e as vozes silenciadas que ousaram se opor aos poderosos. Não há heróis, apenas pessoas comuns dispostas a realizar atos extraordinários.

Entretanto, isso não transforma “O Agente Secreto” em um filme pesado ou sombrio. O roteiro inteligente contrasta o momento histórico sufocante com uma Recife vibrante – do carnaval contagiante, das ruas coloridas, das pessoas que insistem em viver intensamente apesar das adversidades. Essa sensação é capturada em detalhes sutis: um flerte em um órgão público onde Marcelo busca um fragmento de seu passado, uma família desfeita no condomínio onde ele se abriga, a honestidade desconcertante de D. Sebastiana, interpretada pela magnífica Tânia Maria, que brilha na produção.

A recriação de uma época distante, mas tão presente, vai além de uma pesquisa meticulosa, figurinos e direção de arte impecáveis. “O Agente Secreto” é um filme que tem cheiro, temperatura e uma atmosfera cuidadosamente construída por Kleber, onde cada elemento cinematográfico conta uma narrativa. A impressão é que a produção foi filmada secretamente nos anos 1970 e só agora foi revelada ao público.

Essa estrutura revela a evolução impressionante da habilidade narrativa de Kleber. Se antes havia uma sensação de falta de completude em suas obras anteriores, aqui isso não se faz presente. Não há fios soltos ou momentos desnecessários; é um cineasta que domina seu ofício, ciente do peso da história que narra, mas seguro o suficiente para se permitir momentos de leveza – o prêmio de direção em Cannes foi merecido.

Essa certeza na construção da narrativa – com saltos temporais habilmente costurados pela montagem – permite a “O Agente Secreto” materializar, por exemplo, a lenda urbana da Perna Cabeluda, criada pelo jornalista e escritor Raimundo Carrero quando trabalhava no Diário de Pernambuco. No filme, a Perna Cabeluda ganha vida e atravessa as noites de Recife, atacando aqueles cuja moral considera inadequada. Essa personificação lúdica do medo da perseguição estatal oferece um respiro fantástico em meio à realidade histórica que o filme retrata. O regime militar foi, afinal, uma máquina opressora e violenta, distante das narrativas de netos coniventes que insistem que “o governo militar era tudo melhor”.

“O Agente Secreto” é um dos filmes mais políticos que você verá, sem nunca usar a política como um palanque. É uma experiência sensorial perfeita para uma sessão dupla com “Uma Batalha Após a Outra” (fica a dica). É um cinema vibrante, consciente de suas ferramentas narrativas e sociais, que pode incomodar os espectadores certos e proporcionar uma catarse a todos os brasileiros que conhecem seu passado para enfrentar o futuro. É, sem dúvida, a melhor produção nacional dos últimos 20 anos, que acredita na possibilidade de um país melhor.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade