Peter Watkins, cineasta britânico que conquistou o Oscar de melhor documentário com O Jogo da Guerra (1966), faleceu na quarta-feira, dia 30, apenas um dia após completar 90 anos. Reconhecido como um dos pioneiros do que hoje chamamos de “docudrama”, ele desafiou as fronteiras entre a realidade e a ficção em suas obras.
Lançado em março de 1966, O Jogo da Guerra combinava elementos reais e ficcionais para explorar as consequências de um ataque nuclear no Reino Unido, sua terra natal. Utilizando dados e relatos dos desastres de Hiroshima e Nagasaki, o filme incorporava falsas declarações de militares, criando uma narrativa que mesclava um estilo documental rigoroso com entrevistas fictícias e imagens do cotidiano.
De acordo com o British Film Institute (BFI), Watkins pretendia exibir seu documentário na BBC, mas o diretor-geral da emissora considerou o conteúdo “muito chocante para a televisão”.
Em 1974, Watkins lançou Edvard Munch, inicialmente concebido como uma minissérie de TV, que depois foi transformado em um longa-metragem de quase três horas. Esta obra traça a vida do célebre pintor expressionista norueguês de forma não linear, intercalando flashbacks que conectam sua juventude a sua vida adulta, além de abordar o impacto das doenças que afetaram sua família, como a tuberculose da mãe e da irmã, e os problemas mentais do pai. O renomado cineasta sueco Ingmar Bergman descreveu o filme como “a obra de um gênio”.
As ousadas experimentações e provocações de Peter Watkins o tornaram uma figura controversa e, por vezes, rejeitada pelo público britânico. Ao longo de quatro décadas de carreira, ele produziu trabalhos instigantes, sendo seu último projeto Comuna de Paris, 1871 (2000), que aborda o famoso evento histórico francês em uma narrativa de quase seis horas.