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Atriz Bete Mendes, vítima de Ustra, recorda reencontro com seu torturador

Imagem: Reprodução/Globoplay

Aos 76 anos, Bete Mendes protagonizou a novela “Beto Rockefeler” na TV Tupi enquanto lutava contra a repressão da ditadura militar em 1968. Ela foi submetida a torturas pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra e compartilha sua experiência ao reencontrá-lo anos depois.

Durante sua trajetória, Bete estudava Ciências Sociais na USP e integrava uma organização de resistência, além de atuar no teatro. “Naquele tempo, eu não tinha a menor noção do que era a televisão. Comecei no teatro e, de repente, fui chamada para a TV, onde a novela fez muito sucesso”, relembra em uma entrevista ao programa Conversa com Bial (Globo).

“Era claro que não daria certo. E de fato não deu. Eles estavam caçando e prendendo todo mundo. A situação era extremamente complicada”, desabafa Bete.

A artista utilizava o codinome Rosa, em homenagem a Rosa Luxemburgo, e sua militância era realizada com cautela. “Não era apenas por responsabilidade e consciência, mas também pela segurança dos outros. Naquele período, a repressão era tão brutal que qualquer informação compartilhada poderia colocar vidas em risco. Eu poderia, sem querer, causar danos à vida de outras pessoas. Por isso, mantive tudo em segredo.”

Sua primeira prisão ocorreu nas mãos do Capitão Maurício, ex-marido da atriz Irene Ravache. “[Ela] foi minha madrinha, quem me introduziu na TV Tupi […] e me alertou que ele queria conversar comigo, pois eu estava sob suspeita de envolvimento na resistência. Ela disse que se eu negasse, tudo ficaria normal. Eu aceitei, ingênua como éramos naquela época.”

Bete foi levada ao DOI-CODI e detida antes mesmo de ser interrogada. “Passei quatro dias em cela isolada, sem comida. Foi tão traumático que emagreci quatro quilos nesse período. Acabei sendo liberada como suspeita.”

Em sua segunda prisão, enfrentou torturas sob a supervisão de Ustra. “Ele atuou como diretor, orientador e torturador em várias partes do país, sendo um dos mais notórios torturadores da ditadura. A história dele é tão cruel quanto tudo que ele fez.”

Em 1983, Bete foi eleita deputada federal pelo PT e, durante uma viagem com Sarney ao Uruguai, teve um reencontro inesperado com Ustra. “Esse homem, já afastado de suas funções como adido militar, apareceu de maneira pomposa, vestindo uniforme de gala, à nossa espera no aeroporto. Assim que o vi, todas as lembranças da tortura voltaram à tona.”

“Fiquei em estado de desespero. Passei quatro dias em Montevidéu quase sem dormir, tomando banhos frios, aterrorizada. A única coisa que eu sabia era que não poderia fazer uma denúncia ali, pois isso comprometeria um processo lento de democratização. Mas também não podia me calar. Enviava uma carta ao Sarney denunciando aquele adido, responsável por torturas e agora honrado.”

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade