O jogo do bicho tem ganhado destaque e agora se tornou o foco de uma nova série. Com um total de oito episódios, a produção “Os Donos do Jogo” foi lançada hoje na Netflix, apresentando um elenco de peso e gerando uma pergunta: será que é baseado em eventos reais?
Rivais em família e no jogo
Embora a trama da série possa parecer realista, ela é, na verdade, uma obra de ficção — como enfatizam o criador Heitor Dhalia e o elenco em diversas entrevistas. A história utiliza o imaginário coletivo ligado ao jogo do bicho e ao Carnaval carioca para narrar a jornada de Profeta (André Lamoglia), um jovem bicheiro que deixa o interior para buscar ascensão na capital.
Na série, Mirna (Mel Maia) e Susana (Giullia Buscacio) são filhas de Jorge Guerra (Roberto Pirillo), um personagem tradicional do jogo do bicho carioca e fundador da fictícia escola de samba Flor de Madureira. Com sua saúde debilitada, Jorge observa a disputa familiar pela sua sucessão: quem tomará seu lugar na elite do jogo do bicho?
Em entrevista ao Splash, Mel e Giullia comentam sobre as possíveis semelhanças entre a rivalidade das irmãs na série e a história real de Shanna e Tamara Garcia. Essas irmãs gêmeas, filhas do contraventor Maninho — um notório personagem do submundo carioca que faleceu em 2004, deixando um vácuo na administração de seu legado — voltaram a ser notícia com a série “Vale o Escrito”, lançada pelo Globoplay no ano passado.
Mel reconhece que há comparações, mas ressalta que a “história é completamente distinta” e que o público notará isso ao acompanhar a série. Giullia concorda, acreditando que as irmãs são parte do imaginário social.
A semelhança que as pessoas buscam [com Shanna e Tamara] se deve ao fato de serem as duas figuras femininas mais conhecidas nesse contexto. Isso está muito presente na mente do público. Mas assim que eles conhecerem Mirna e Susana, perceberão que se trata de uma narrativa ficcional: duas irmãs com características completamente diferentes que vivem em um contexto familiar distinto. Giullia Buscacio
Na trama, Susana decide se casar com Búfalo (Xamã), um lutador de MMA. Ele herda o anel que pertencera a seu pai e começa a se integrar aos grandes nomes da contravenção carioca. “Para ela entrar no jogo e começar a se movimentar, precisava de alguém ao seu lado. E acabou sendo alguém com quem ela tem uma conexão, que é o Búfalo. Ela, de forma astuta, abraçou essa oportunidade. Susana decidiu jogar o jogo.”
Por outro lado, Mirna rejeita se submeter ao machismo da elite e não tem a intenção de se casar para alcançar seu espaço. Ela acredita em sua inteligência como sua arma, mas vê em Profeta, que vem de Campos dos Goytacazes, um parceiro para aproveitar o poder de sua família. Juntos, eles elaboram estratégias para desestabilizar Búfalo.
O jogo de Mirna é uma afirmação de empoderamento feminino. Criá-la como personagem foi um ato de resistência, porque ela é extremamente forte, deseja alcançar o topo por conta própria e não quer se submeter ao universo machista do jogo do bicho, que é predominantemente masculino. Ela quer utilizar sua inteligência para conquistar respeito em um ambiente que historicamente não a acolhe. Mel Maia
Melodrama e a cultura popular
O elenco reconhece que “Os Donos do Jogo” se inspira no melodrama brasileiro e reflete a identificação do público com conflitos familiares, poder e destino, além do conhecimento que se tem sobre o Rio. “É uma narrativa ficcional que brinca com o que esperamos de uma família. A cultura carioca está presente: o samba, a calorosidade das relações e a convivência intensa que todo carioca conhece”, afirma Giullia Buscacio.
Para André Lamoglia, que é o protagonista, o que diferencia a série é a combinação de gêneros. “É uma produção multifacetada, que aborda o gênero da máfia. É uma disputa familiar em que acompanhamos a ascensão de Profeta: sua chegada ao Rio para conquistar o que almeja e se afirmar na liderança do jogo do bicho carioca.”
Xamã descreve a série como “uma máfia brasileira e carioca”, que mistura “poder, sedução e a beleza natural do Rio”. “É um produto autêntico, que toca o imaginário das pessoas — trazendo Carnaval, as ruas do Rio e lugares reconhecíveis.”
Todo carioca sabe que essa máfia existe, e a série revela detalhes sobre seu funcionamento. É parte da nossa cultura, e o público merece conhecê-la. Mel Maia