Guillermo del Toro nutre uma profunda admiração por suas criações monstruosas. Desde o Homem Pálido em “O Labirinto do Fauno” até a criatura aquática de “A Forma da Água”, passando por seres abissais em “Hellboy” e “Círculo de Fogo”, o cineasta mexicano dedicou uma parcela significativa de sua carreira a descobrir a beleza no grotesco. A nova adaptação de “Frankenstein” pode ser interpretada, de maneira bastante pessoal, como um fechamento de ciclo.
A obra seminal de Mary Shelley, lançada pela primeira vez em 1818, já foi reinterpretada de inúmeras formas no cinema, e seu perdurável apelo é um testemunho da diversidade de suas ideias. Considerada um marco da ficção científica, “Frankenstein” tem sido abordada sob diferentes ângulos, desde o terror até a comédia, passando por fábulas infanto-juvenis, melodramas shakespeareanos e alegorias sociais, refletindo o zeitgeist de cada adaptação. Um observador desatento poderia concluir que nada mais poderia ser acrescentado à narrativa.
Entretanto, com sua versão de “Frankenstein”, Guillermo del Toro demonstra que qualquer “definitiva interpretação” de um conto atemporal é uma ilusão. Seu filme se mantém fiel à obra original, ao mesmo tempo que adiciona camadas que ressaltam temas relevantes à sua visão. “Frankenstein” aborda questões de identidade e solidão, obsessão e destino, configurando-se como uma fábula de terror gótico imersa em momentos de beleza sufocante e profundidade perturbadora.
A estrutura narrativa é familiar, iniciando com um prólogo que apresenta um navio holandês preso nas águas congelantes do Ártico, onde um homem em estado crítico é resgatado do gelo, perseguido por uma entidade inumana. O sobrevivente é Victor Frankenstein (Oscar Isaac), que, em meio a um delírio febril, narra sua trajetória até a desolação em que se encontra, à mercê de um monstro que parece invencível.
Nesse primeiro ato, Victor compartilha sua obsessão em desafiar a morte, um impulso que surge após a perda de sua mãe na infância. Seus esforços chamam a atenção de Henrich Harlander (Christoph Waltz), um empresário que fez fortuna investindo na indústria bélica. Harlander disponibiliza seus recursos ao cientista, o que leva a um reencontro familiar, já que o irmão de Victor, William (Felix Kammerer), está noivo de sua sobrinha, Elizabeth (Mia Goth).
Entre triunfos e tragédias, Victor finalmente alcança seu objetivo, trazendo à vida sua Criatura, feita de partes de cadáveres, um júbilo que rapidamente se transforma em frustração. Ao perceber que seu ato de criar vida não lhe concede controle, o cientista vê sua maior realização como um fracasso e se empenha em destruir a Criatura e apagar qualquer vestígio de sua criação. É nesse momento que “Frankenstein” inicia seu segundo ato, onde brilha a atuação de Jacob Elordi.
Desde o clássico visual de Boris Karloff até a interpretação visceral de Robert De Niro, a Criatura de Frankenstein já teve inúmeras representações. A escolha de Jacob Elordi, conhecido por filmes como “Priscilla” e “Saltburn”, despertou curiosidade sobre como Del Toro apresentaria seu monstro.
O desempenho meticuloso e sensível de Elordi dissipou as dúvidas iniciais sobre um galã assumindo um papel tão inusitado, lembrando a forma como o público se rendeu à interpretação do Coringa por Heath Ledger em “O Cavaleiro das Trevas”. Como a Criatura, que ocupa o centro da trama neste segundo ato, Jacob constrói um personagem que é ao mesmo tempo terno e grotesco, perdendo gradualmente sua inocência ao ser confrontado com um mundo que não compreende sua existência. A genial atuação do ator confere à Criatura uma mistura de inteligência e empatia, temperada por uma ardente paixão e fúria.
A preferência de Guillermo del Toro pela jornada da Criatura é evidente, especialmente nos momentos em que ela se torna o foco da narrativa. Oscar Isaac poderia oferecer uma performance mais exagerada como Victor para contrabalançar com o trabalho de Elordi. Mia Goth fortalece os conflitos de sua personagem, Elizabeth, mas sua relação peculiar com o monstro poderia ser explorada de maneira mais profunda.
Essas falhas pontuais na forma não diminuem a grandiosidade da obra, que reflete a complexidade dos temas que Mary Shelley abordou originalmente – questionando a essência da humanidade ao desafiar Deus na criação da vida, e enfatizando a soberania e a arrogância de tentar trazer vida a partir da morte. É em torno dessas questões que o “Frankenstein” de Del Toro gira.
Há algo singular quando um cineasta finalmente concretiza um projeto que lhe escapa das mãos por tanto tempo. Isso se aplica a James Cameron em “Titanic” e a Peter Jackson em “King Kong”. “Frankenstein” é Guillermo del Toro abraçando uma narrativa que sempre acendeu sua imaginação (a outra, “Nas Montanhas da Loucura”, de Lovecraft, ainda é um desejo distante), logrando, assim, fazer com que uma história frequentemente contada pareça renovada.
Além de sua habilidade em selecionar um elenco notável e de suas escolhas narrativas que respeitam e expandem a obra de Mary Shelley, Del Toro criou um filme tão belo quanto brutal. A direção de arte e o figurino são excepcionais, assim como a marcante trilha sonora de Alexandre Desplat. O diretor, contudo, é consciente de que navega por águas aterrorizantes, não hesitando em expor as consequências das ações da Criatura, que reage com violência extrema quando sua promessa de um paraíso é incessantemente frustrada.
“Frankenstein” pode não ser a melhor adaptação da obra imortal de Mary Shelley – essa distinção ainda pertence a “A Noiva de Frankenstein”, dirigido por James Whale em 1935. No entanto, o filme de Guillermo del Toro é o que mais aprofunda a beleza que reside no coração de uma alma atormentada, forçada a viver uma vida que não escolheu, sob a tutela de um criador descuidado. Com sua imaginação ímpar, o cineasta revela a grandeza de uma tragédia que reflete sobre a condição humana e se encerra, finalmente, no laço indissolúvel entre criador e criatura. Entre pais e filhos. Entre deuses e monstros.