Dois fundos de investimento estão sob investigação do Ministério Público de São Paulo (MPSP) por suspeitas de lavagem de dinheiro ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Esses fundos, que têm vínculos com o Galo Forte FIP, uma entidade criada pelo empresário Daniel Vorcaro para adquirir parte das ações da SAF do Atlético-MG, possuem um patrimônio líquido próximo de R$ 60 bilhões. Os fundos Olaf 95 e Hans 95 são mencionados na operação Carbono Oculto, que foi iniciada em agosto e visa desmantelar a infiltração da facção em diferentes setores econômicos.
A conexão com a Sociedade Anônima do Futebol do Atlético foi divulgada recentemente pelo jornalista Rodrigo Capelo, no Estadão. De acordo com documentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ambos os fundos são geridos pela Reag, que também é alvo das investigações. O histórico disponível no site da CVM revela que o Olaf 95 e o Hans 95 investiram em outros fundos de capital que, por sua vez, financiaram o Galo Forte, todos sob a administração da Reag.
Os fundos são interligados em um modelo conhecido como “fundos sobre fundos”. Nesse esquema, cada tipo de capital adquire cotas de outros fundos. No mercado, o patrimônio líquido do Olaf 95 é estimado em R$ 29,55 bilhões, com a maioria de seus ativos investidos em outros fundos, sendo o Hans 95 o principal receptor, recebendo cerca de R$ 19 bilhões.
O Hans 95, por sua vez, tem um patrimônio líquido de R$ 29,22 bilhões, com seus investimentos também majoritariamente direcionados a outros fundos. O Alepo 95 é o maior beneficiário, com um aporte de R$ 15,7 bilhões, de acordo com dados da CVM de março de 2025. O Alepo 95 possui em sua carteira investimentos no Maia 95, que canalizou recursos para o Astralo 95 — este último, segundo informações da CVM, possui o Galo FIP em sua lista de ativos, com um valor de R$ 300 milhões, que coincide com o investimento de Vorcaro na aquisição de ações da SAF do Atlético, conforme demonstrativos financeiros do clube.
O Ministério Público de São Paulo declarou que os desdobramentos da operação Carbono Oculto estão sob segredo de Justiça e, por isso, não podem fornecer informações sobre o caso. Os promotores do Gaeco não estão concedendo entrevistas. A CVM também afirmou que não comenta casos específicos. Uma desembargadora com experiência em processos relacionados ao PCC mencionou que situações envolvendo a SAF do Atlético não são incomuns no Brasil.
Ela destacou que essa modalidade de lavagem de dinheiro envolvendo clubes de futebol já foi abordada em outras investigações, citando a delação de Gritzbach, um empresário que foi assassinado em 2024 e que detalhou como ocorrem esses esquemas.
A Reag, responsável pela administração dos dois fundos, informou que possui mais de R$ 340 bilhões sob gestão e expressou surpresa com as menções a seus nomes, negando qualquer associação com atividades ilícitas.
O Banco Master, também administrado por Vorcaro, negou qualquer vínculo com os bancos citados nas investigações. Em sua declaração, afirmou que as estruturas em questão não fazem parte do seu grupo e não têm relação societária com o banco ou seus executivos. O Galo Forte FIP é de propriedade pessoal de Daniel Vorcaro, uma informação pública amplamente divulgada.
O Atlético se posicionou, afirmando que não tem conhecimento de irregularidades em seus investimentos, ressaltando que o Galo Forte FIP é um fundo legalmente constituído e registrado na CVM.
Vorcaro é um dos sócios da SAF do Atlético, detendo quase 27% das ações. Quando a SAF foi estabelecida em setembro de 2023, a associação ficou com 25% e a Galo Holding, formada por um grupo de acionistas, com os 75% restantes. Em agosto, o conselho administrativo decidiu negociar 15% de seu valor.
Vorcaro investiu no Atlético por meio do Galo Forte FIP, adquirindo cerca de 26,9% da Galo Holding SA, com um investimento inicial de R$ 100 milhões em 2023 e mais R$ 200 milhões em 2024, ambos registrados na CVM e administrados pela Trustee DTVM. Com esses investimentos, ele ganhou influência nas decisões estratégicas da SAF, participando do conselho consultivo do clube.
Recentemente, a aquisição do Banco Master por parte do Banco de Brasília (BRB), avaliada em R$ 2 bilhões, foi rejeitada pelo Banco Central, apesar de ter recebido aprovações anteriores. A transação previa que o BRB adquirisse uma significativa participação no Banco Master, ampliando sua presença no mercado financeiro.
Apesar da negativa, ambas as instituições manifestaram interesse em acessar a íntegra da decisão do Banco Central para entender os fundamentos da recusa. O mercado expressou alívio com a interrupção da negociação, uma vez que havia desconfiança em relação à operação desde o início.
Interlocutores do mercado relataram que a gestão do Banco Master, sob a liderança de Vorcaro, sempre levantou suspeitas, especialmente devido a altas taxas de CDBs e investimentos arriscados. A figura de Vorcaro é vista como controversa, levando a uma aversão por parte de certos investidores.
A situação em torno do Banco Master e a recente decisão do Banco Central refletem um cenário complexo, onde as implicações vão além do que é visível, levantando questões sobre governança e segurança financeira.