O gênero de terror é inegavelmente um dos mais seguros quando se trata de atrair o público. Cada nova ideia é rapidamente explorada e expandida, resultando em um estilo cinematográfico que se destaca na criação de universos únicos, solidificando conceitos memoráveis e transformando personagens em ícones da cultura pop.
Dirigido por Scott Derrickson em 2022, “O Telefone Preto” trouxe uma narrativa envolvente que mesclava crime e elementos sobrenaturais. Ethan Hawke interpretou o Sequestrador (ou “Grabber”, em inglês), um assassino que sequestrava adolescentes, mantendo-os vivos em um porão enquanto jogava um macabro jogo que culminava em suas mortes. A estética marcante do vilão, projetada para se tornar um item colecionável, foi fundamental para o sucesso do filme.
Embora a utilização de símbolos visuais impactantes seja um fator que contribui para a popularidade de um novo longa, o verdadeiro mérito de Derrickson e do roteirista C. Robert Cargill reside na atenção dada aos personagens e à dinâmica entre eles. Essa abordagem torna a jornada de Finn (Mason Thames), que é capturado pelo Sequestrador e, com a ajuda dos fantasmas de suas vítimas, busca a vingança e a liberdade, cativante e envolvente.
O que poderia ser o desfecho da história se transforma em uma nova oportunidade de expansão, algo que os criadores de “O Telefone Preto” claramente perceberam. O novo filme, embora não possua o mesmo impacto ou inovação do original, compensa com um escopo ampliado. O claustrofóbico porão é trocado por uma colônia de férias isolada durante um inverno rigoroso, com suas cabanas desertas à beira de um vasto lago congelado. Apesar da nova amplitude, a sensação de confinamento persiste.
Agora com 17 anos, Finn saiu do porão há quatro anos, mas sua mente permanece presa àquele trauma. Tornou-se um jovem solitário, e nem mesmo a proximidade com sua irmã, Gwen (a talentosa Madeleine McGraw), consegue quebrar esse ciclo. Ela, por sua vez, enfrenta suas próprias dificuldades: os sonhos premonitórios que teve na infância se tornam ainda mais vívidos. Uma visão de sua mãe em uma colônia de férias leva Gwen e Finn ao mesmo local, que guarda segredos sobre o passado do Sequestrador.
“O Telefone Preto 2” evita as armadilhas comuns de continuações que tendem a repetir fórmulas de sucesso. Mantendo o foco em seus personagens centrais, Derrickson e Cargill se afastam da fórmula original, apresentando uma narrativa que se afirma como terror sobrenatural – com o retorno do personagem de Ethan Hawke, agora como um espírito vingativo.
Isolados na colônia congelada, acompanhados por uma equipe reduzida (liderada pelo sólido Demián Bichir), Finn e Gwen devem enfrentar o poder sobrenatural do Sequestrador, desenterrando os corpos de três meninos que ele matou quando trabalhou no local – curiosamente, na mesma época em que os irmãos frequentaram a colônia. O objetivo não é esclarecer a origem do assassino, mas mostrar a extensão de suas ações.
Um dos principais méritos de “O Telefone Preto 2” é resgatar o conceito de “maníaco dos sonhos” que estava monopolizado por Freddy Krueger. Agora, fora do mundo físico, o Sequestrador ataca os sonhos de Gwen, transformando seus pesadelos premonitórios em realidade, interagindo com o mundo ao seu redor. Além da clara referência à série “A Hora do Pesadelo”, o filme também traz ecos de “Sexta-Feira 13” e uma pitada de “O Iluminado”. Como Joe Hill, autor do conto que inspirou “O Telefone Preto”, é filho de Stephen King, a conexão é evidente.
Apesar do impacto das cenas mais intensas, habilmente construídas por Scott Derrickson – que sabe como criar atmosfera e tensão –, “O Telefone Preto 2” aborda o medo sob a ótica do trauma e do isolamento. Esses temas permeiam o filme e, embora centrados em Finn, também reverberam em outros personagens, como o pai dele, vivido por Jeremy Davies, que tem um papel mais substancial aqui.
No entanto, falta um maior destaque para os óbvios contornos sexuais dos crimes do Sequestrador. Embora o fato de ele atacar apenas meninos seja subentendido, esse aspecto nunca é explicitamente abordado. Essa escolha mantém o passado do personagem envolto em mistério, preservando seu impacto, mas sempre há espaço para um pouco mais de Ethan Hawke em cena. Essa é uma narrativa que pode ser explorada mais tarde.
Com o Halloween se aproximando e o interesse contínuo pelo medo como uma experiência compartilhada, “O Telefone Preto 2” não parece ter fechado as portas para nenhum de seus personagens – especialmente para o Sequestrador. Se a essência do gênero reside na exploração de boas ideias, é inegável que há espaço para um futuro retorno do (agora) assassino sobrenatural. Uma lição que o cinema de terror nos ensina ao longo de mais de um século é que o Mal pode ser desacelerado, bloqueado e enfraquecido, mas nunca completamente erradicado.