Recentemente, Trump declarou que irá aplicar uma taxa de 100% sobre filmes estrangeiros nos Estados Unidos. À primeira vista, essa pode parecer apenas mais uma das suas polêmicas, mas essa decisão pode representar a chance que o cinema brasileiro e mundial precisava para deixar de depender das sobras do império e começar a edificar seus próprios espaços.
Não sou ingênuo a ponto de pensar que um imposto protecionista traga benefícios. No entanto, é curioso observar Hollywood, que sempre considerou o resto do mundo como um mero local para filmagens baratas e uma audiência passiva, enfrentar as consequências da arrogância do seu presidente. Um presidente que, paradoxalmente, reconhece a importância de uma indústria cultural robusta, uma vez que sua imagem foi construída através de aparições em filmes e programas de televisão.
O que mais me incomoda, no entanto, é a maneira como nos concentramos tanto no que vem de fora que esquecemos de valorizar o que temos aqui. O Brasil, com seus 203 milhões de habitantes, vê seu cinema nacional conquistar menos de 11% do mercado interno. Muitas vezes, preferimos assistir ao Homem-Aranha pela décima sétima vez do que explorar a riqueza das nossas próprias narrativas.
Produzir filmes não é suficiente. Precisamos cultivar um público que compreenda que o cinema brasileiro vai além de comédias românticas e dramas sobre a favela, embora essas histórias também tenham seu lugar e importância. É fundamental que se reconheça que a jornada do menino da periferia de São Paulo é tão grandiosa quanto a de qualquer super-herói e que a história da mulher trans de Fortaleza carrega uma força de resistência superior a qualquer filme de guerra americano.
O desafio é que fomos ensinados a acreditar que nossas narrativas não são suficientemente boas. Crescemos com a ideia de que, para ser considerado um verdadeiro cinema, é necessário um orçamento exorbitante, estrelas de Hollywood e dublagem. Aprendemos a ter vergonha das nossas próprias histórias, e muito disso nos foi transmitido pela própria Hollywood.
A decisão de Trump de fechar as portas dos Estados Unidos pode ser o sinal que precisávamos para olhar para dentro de casa. E quando falo de “casa”, não me refiro apenas ao Brasil, mas a toda a América Latina, África, Índia e China — regiões que compreendem o que é ser tratado como um mercado de segunda classe.
A Índia, por exemplo, é o maior produtor de filmes do mundo e mantém 90% do seu mercado interno. A China já limita a exibição de filmes americanos em suas salas. Esses países entenderam que o cinema é um símbolo de soberania cultural, uma forma de contar suas próprias histórias sem pedir permissão.
E nós? Precisamos urgentemente realizar esse trabalho fundamental em casa. Fortalecer o mercado interno não se resume apenas a produzir mais filmes com recursos públicos, mas a fomentar uma cultura cinematográfica brasileira. Isso implica levar o cinema para as periferias, para o interior e para cidades que não têm salas de exibição. É necessário fazer com que assistir a um filme nacional se torne tão comum quanto torcer pelo time local.
É crucial investir em educação audiovisual nas escolas, mostrando às crianças que elas podem ser diretoras, roteiristas e atrizes, e que suas histórias são importantes. É preciso desmistificar a ideia de que o sotaque e a aparência precisam ser alterados, e que a realidade delas merece um espaço na tela grande.
A distribuição também deve ser repensada. Plataformas de streaming pagam pouco pelos nossos filmes e não contribuem com impostos para a indústria, mas continuamos a persegui-las como se fossem um favor. E se criássemos nossas próprias plataformas de streaming voltadas para conteúdo latino-americano, africano e asiático? E se parássemos de competir com Hollywood nas suas regras e estabelecêssemos as nossas?
É hora de fazer marketing e cultivar orgulho. Precisamos deixar de tratar o cinema brasileiro como “algo de nicho para cinéfilos” e começar a divulgá-lo como o que realmente é: entretenimento popular, feito para o nosso público. A Globo fez isso com suas novelas por décadas e funcionou. Por que não conseguiríamos replicar esse sucesso no cinema?
É claro que colaborações internacionais com países como China, Índia e nações africanas são essenciais, mas elas só terão sucesso se tivermos um mercado interno forte. Ninguém respeita quem não se respeita. Se não valorizamos nossas histórias, por que esperar que o mundo lá fora o faça?
O fechamento das portas por Trump pode ser o empurrão necessário. Não para que busquemos outra porta, mas para que finalmente construamos nosso próprio espaço. Um espaço onde nossas histórias sejam as protagonistas, onde o público seja educado a valorizar sua própria cultura, e onde não precisemos mais exportar talentos, pois aqui é onde as coisas realmente acontecem.
No final das contas, o cinema é sobre contar histórias humanas. E a última vez que verifiquei, a humanidade não é propriedade exclusiva dos Estados Unidos. Contudo, não adianta apenas criticar o império se não acreditarmos em nosso próprio reino.