Em 22 de março de 2018, Geraldo Vandré fez sua reestreia no Brasil ao subir ao palco da Sala de Concertos Maestro José Siqueira, localizada no Espaço Cultural José Lins do Rêgo, em João Pessoa (PB). Quase cinco décadas se passaram desde sua última apresentação no país, quando ele, então com 82 anos, havia se afastado dos palcos. A última vez que Vandré se apresentou foi em 12 de dezembro de 1968, na cidade de Anápolis (GO). No dia seguinte, a promulgação do AI-5, um dos atos mais repressivos do regime militar, forçou o artista a entrar na clandestinidade e, 65 dias depois, em 16 de fevereiro de 1969, ele deixou o Brasil.
Meio século depois, Vandré voltou a se apresentar, desta vez acompanhado por músicos como o maestro Luiz Carlos Durier e a pianista Beatriz Malnic. O regente da Orquestra Sinfônica da Paraíba tentou incluir no repertório a famosa Disparada, mas não conseguiu. Em compensação, Vandré encerrou a noite com seu maior sucesso: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, não espera acontecer…”. “A plateia ficou em êxtase”, celebra Malnic. “Parecia um ensaio”, anima-se Durier.
A ideia de voltar aos palcos na Paraíba, sua terra natal, foi uma iniciativa de Vandré. Em 1º de janeiro de 2017, ele visitou Beatriz Malnic, sua amiga de longa data, e a convidou para participar de seu retorno aos palcos brasileiros. Os produtores ficaram tão entusiasmados que sugeriram a ele um grande teatro com capacidade para três mil pessoas, mas Vandré preferiu um ambiente mais íntimo. Assim, em vez de um único show, decidiu realizar dois: um no dia 22 e outro no dia 23, com a condição de que o repertório incluísse composições instrumentais e poemas inéditos. No dia 23, ele também se apresentou em Sorocaba (SP).
Os ingressos, que eram gratuitos, esgotaram rapidamente. Muitos fãs, ansiosos por essa rara oportunidade de ver o artista ao vivo, trouxeram LPs para serem autografados. Entre 1964 e 1973, Vandré lançou cinco álbuns de estúdio: Geraldo Vandré (1964), Hora de Lutar (1965), 5 Anos de Canção (1966), Canto Geral (1968) e Das Terras de Benvirá (1973). “Com carinho e paciência, ele interagiu com cada pessoa e autografou todos os discos”, conta Malnic. “Notei um afeto sincero por parte dele em relação ao público. Ele estava verdadeiramente feliz ali.”
“Morte em vida”
Pra Não Dizer que Não Falei de Flores, também conhecida como Caminhando, é indiscutivelmente a canção mais emblemática de Geraldo Vandré, mas não a única. Jorge Fernando dos Santos, autor da biografia Vandré – O Homem que Disse Não (Geração Editorial, 2015), destaca a já mencionada Disparada como uma de suas favoritas. “Vandré foi um símbolo de sua época, engajado nas questões sociais”, afirma. “Ícone dos grandes festivais de MPB, ele desafiou o regime militar e pagou um preço alto por isso.”
A historiadora Dalva Silveira, autora de Geraldo Vandré – A Vida Não Se Resume em Festivais (Fino Traço, 2011), menciona outra canção, Porta-Estandarte, como a sua predileta. “Foi a música que lhe rendeu a primeira vitória em um festival”, recorda, referindo-se ao 2° Festival Nacional de Música Popular Brasileira, que ocorreu entre abril e junho de 1966 e foi transmitido pela extinta TV Excelsior. “O suposto mistério em torno das razões de sua ‘morte em vida’ se assemelha ao enigma dos porões da ditadura. Muitos crimes permanecem sem esclarecimento. Muitos não sabemos o que aconteceu com suas vítimas”, observa Dalva.
O jornalista Vitor Nuzzi, autor de Geraldo Vandré – Uma Canção Interrompida (Kuarup, 2015), cita, entre outras canções, Réquiem para Matraga, escrita para o filme A Hora e A Vez de Augusto Matraga (1965), que é uma adaptação do conto de Guimarães Rosa. Essa canção também foi incluída na trilha de outros filmes, como Bacurau (2019) e Homem com H (2025). “Um dos artistas mais significativos de sua geração, Vandré deve ser conhecido por sua obra, e não por mitos”, enfatiza Nuzzi. “Muitos ainda acreditam que Vandré foi torturado fisicamente. Na verdade, ele não foi, mas ser forçado a deixar sua pátria e ficar afastado por mais de quatro anos é uma forma diferente de violência.”
Quem é Geraldo Vandré?
Geraldo Vandré, que nasceu como Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, veio ao mundo em 12 de setembro de 1935, em João Pessoa (PB). “Seu nome artístico é uma abreviação do sobrenome do pai, o médico José Vandregíselo”, explica o poeta Luiz Carlos Bahia, que conheceu Vandré em 1977.
Após se mudar para o Rio de Janeiro em 1951, Vandré formou-se em Direito pela Universidade do Estado da Guanabara (atual UERJ), integrou o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE) e começou a compor ao lado de grandes nomes da MPB, como Carlos Lyra e Baden Powell. Em 1965, ele fez sua estreia no 1° Festival Nacional de Música Popular Brasileira, transmitido pela extinta Excelsior, onde defendeu a canção Sonho de Um Carnaval, composta por Chico Buarque.
“Arrastão, composta por Edu Lobo e Vinicius de Moraes, conquistou a plateia, enquanto minha música ficou em segundo plano”, recorda Chico, em uma entrevista ao documentário Uma Noite em 67 (2010). “Tem uma história engraçada: ninguém sabia quem eu era, mas no intervalo, tocaram todas as músicas. Ouvi um comentário de Braguinha: ‘Mas essa última é uma droga!’. Era a minha”, diz, rindo.
A era dos festivais
Entre 1966 e 1968, Vandré participou de sete festivais, vencendo dois deles com Porta-Estandarte e Disparada, sendo que no 2° Festival da Música Popular Brasileira houve um empate técnico entre Disparada, interpretada por Jair Rodrigues, e A Banda, defendida por Nara Leão. Em outros dois festivais, Vandré ficou em segundo lugar com O Cavaleiro e Pra Não Dizer que Não Falei de Flores, que foram superadas, respectivamente, por Saveiros e Sabiá.
Das músicas mencionadas, nenhuma incomodou tanto a ditadura militar quanto Pra Não Dizer que Não Falei de Flores, a ponto de o general Sizeno Sarmento exigir ao diretor da TV Globo, Walter Clark, que a canção não vencesse o festival. “Não posso impedir que o júri vote”, respondeu Clark. O militar insistiu: “Problema seu”. Para alívio do diretor, Sabiá venceu por 109 pontos a 106.
O 3° Festival Internacional da Canção foi concluído em 29 de setembro de 1968, mas a perseguição a Vandré apenas começava. Em 23 de outubro, o regime militar proibiu a execução de Pra Não Dizer que Não Falei de Flores em rádios e shows. “Símbolo da resistência contra a ditadura, a música só foi liberada em 3 de outubro de 1979”, observa Dalva. “Ela permanece atemporal, sendo cantada em protestos estudantis e movimentos sociais.” Em 2023, manifestantes em Israel interpretaram uma versão em hebraico da canção em protesto ao governo de Benjamin Netanyahu.
Foi Aracy de Carvalho, viúva de Guimarães Rosa, quem ajudou Vandré a deixar o país, conforme relata o jornalista Zuza Homem de Mello em seu livro A Era dos Festivais – Uma Parábola (Editora 34, 2003). Ela o abrigou em seu apartamento no Rio de Janeiro, fornecendo um passaporte falso e disfarce de idoso. Vandré conseguiu atravessar a fronteira para o Paraguai e, em seguida, seguir para o Chile. “Ele escapuliu sem nunca ter sido preso”, afirma Homem de Mello.
Anos de exílio
De 1969 a 1973, Vandré viveu em exílio, período em que gravou um disco na França, Das Terras de Benvirá, e publicou um livro de poemas no Chile, Cantos Intermediários de Benvirá. “Ele deixou o Chile na hora certa. Meses depois, o governo de Salvador Allende foi derrubado por Pinochet. Se tivesse permanecido, poderia ter enfrentado um destino similar ao de Víctor Jara”, reflete Jorge Fernando dos Santos.
Marcelo Melo, um dos fundadores do Quinteto Violado, participou do último álbum de Vandré. “Sempre admirei sua obra, além de sermos paraibanos”, diz. Ele relembra o clima de desconfiança durante as gravações: “Havia um ‘espião’ no estúdio. Vandré mantinha um gravador ligado o tempo todo para registrar tudo o que dizíamos, temendo que alguém se apropriasse de suas músicas.”
Vitor Nuzzi ressalta uma entrevista que Vandré deu a uma TV alemã em 9 de outubro de 1970, a única gravação em que ele aparece cantando algumas de suas canções, como Che e Pra Não Dizer que Não Falei de Flores. “Não existem outras imagens em vídeo do autor interpretando sua música mais famosa”, observa o biógrafo.
Vandré retornou ao Brasil em 1973. O álbum Das Terras de Benvirá, gravado na França em 1970, foi lançado no Brasil pela gravadora Phonogram. Desde então, o cantor não lançou mais discos. Em 2018, durante os dois shows em João Pessoa, ele publicou Poética, a versão brasileira de Cantos Intermediários de Benvirá, escrita durante seu exílio. “A ditadura impôs um silêncio a Vandré”, conclui Nuzzi. “Ele se afastou, mas nunca parou de criar e compor.”