Quando “Toy Story” estreou nos cinemas no final de 1995, o cenário da animação digital ainda era um campo virgem. Naquela época, a Disney estava no auge nos anos 90, acumulando sucessos impressionantes com clássicos como “A Bela e a Fera”, seguidos por “Aladdin”, “O Rei Leão” e “Pocahontas”. Entretanto, uma revolução silenciosa acontecia nos bastidores da própria Disney.
Em 1988, sob a liderança de Steve Jobs, co-fundador da Apple, a Pixar lançou o curta-metragem “Tin Toy”, dirigido pelo brilhante John Lasseter. Após ganhar o Oscar de Melhor Curta de Animação, a Disney buscou Lasseter para que ele retornasse à empresa da qual havia sido demitido. Dividido entre o desejo de voltar a trabalhar para o Mickey e a oportunidade de fazer história em sua própria “casa”, Lasseter tomou uma decisão firme.
Nos anos seguintes, houve uma intensa disputa pelo “passe” de Lasseter. No fim, o CEO da Disney, Michael Eisner, e o presidente da divisão de filmes, Jeffrey Katzenberg, perceberam que não poderiam vencer a batalha. Assim, decidiram firmar um acordo inusitado para que a Pixar desenvolvesse longas-metragens que seriam lançados pela Disney.
Enquanto advogados se debruçavam sobre questões de propriedade, Lasseter e sua equipe, incluindo os roteiristas Andrew Stanton e Pete Docter, começaram a esboçar o que viria a ser “Toy Story”. A narrativa inicialmente girava em torno de Tinny, o boneco protagonista de “Tin Toy”, mas, com a sugestão de Katzenberg, evoluiu para a história de uma dupla que, após um início conturbado, se tornaria amiga. O cerne da trama, no entanto, permaneceu fiel à visão de Lasseter: a busca dos brinquedos por pertencimento a uma criança.
Os primeiros rascunhos do roteiro foram escritos em 1991, mas logo a Pixar enfrentou a forte influência de Katzenberg, que exigiu mudanças para tornar o filme “mais acessível para crianças e adultos”. O resultado não foi como esperado, apresentando piadas de duplo sentido e protagonistas com comportamentos amargos. Um teste de animação com esse roteiro desanimou a equipe, levando Katzenberg a reconsiderar e permitir que Lasseter retornasse à versão original.
Esse novo roteiro, porém, ainda apresentava desorganização, uma vez que Stanton e Docter não tinham experiência em roteirização. Para ajudar, a Pixar trouxe consultores, incluindo Josh Whedon, conhecido por “Os Vingadores”, para aprimorar o texto. Com uma estrutura finalmente aprovada em meados de 1994, o projeto avançou para a fase de animação. E nesse estágio, a Pixar teve que inovar repetidamente.
Praticamente todos os aspectos de “Toy Story” foram revolucionários. Embora a animação digital tivesse experimentado um crescimento após “O Exterminador do Futuro 2” e “Jurassic Park”, nada se comparava à complexidade de criar um longa-metragem inteiramente em CGI. A equipe, reduzida, trabalhava sem parar em busca de soluções para animar cada detalhe do filme, desde os movimentos de Woody até elementos simples como uma folha ao vento ou a grama de um jardim.
Para garantir um aspecto o mais natural possível, a equipe optou por não explorar excessivamente as possibilidades de uma câmera virtual em um ambiente digital. Ao contrário do que era comum entre animadores da época, que se entusiasmavam com tomadas panorâmicas, “Toy Story” foi criado como um filme em live-action, como se estivesse sendo filmado com câmeras convencionais. Referências reais de luz e sombra, além das expressões faciais de atores como Tom Hanks e Tim Allen durante a gravação das vozes, acrescentaram profundidade e fluidez à animação.
“Toy Story” finalmente fez sua estreia nas telonas em 22 de novembro e rapidamente se tornou um grande sucesso. Com personagens marcantes, como Woody e o astronauta Buzz Lightyear, que inicialmente não percebe que é um brinquedo, e um forte apoio do marketing da Disney, o filme se transformou em um fenômeno. Para se ter uma ideia, arrecadou US$ 365 milhões, ficando em segundo lugar entre os lançamentos de 1995, apenas US$ 1 milhão abaixo do primeiro colocado, “Duro de Matar – A Vingança”.
Entretanto, o maior triunfo de “Toy Story” não foram seus números impressionantes. O filme estabeleceu a Pixar como uma das marcas mais respeitadas do cinema, sinônimo de narrativas brilhantes e emocionantes, apresentadas com maestria. Clássicos como “Monstros S.A.”, “Procurando Nemo”, “Os Incríveis”, “Ratatouille” e “Wall-E” frequentemente figuram entre as produções mais adoradas do público nas últimas três décadas.
A trama é uma obra-prima. Woody (Tom Hanks) é o brinquedo favorito de Andy e o “líder” dos brinquedos no quarto do garoto — nesse universo, os brinquedos ganham vida quando os humanos não estão por perto. A rotina de Woody muda com a chegada de Buzz Lightyear (Tim Allen), um boneco que acredita ser um verdadeiro patrulheiro espacial. Dominado pela inveja, Woody planeja se livrar do novo rival, mas acaba levando ambos a uma grande aventura em busca de seu verdadeiro propósito.
Recordo com clareza a primeira vez que assisti a “Toy Story” em sua estreia nos cinemas em janeiro de 1996. A experiência de descobrir algo verdadeiramente inovador, uma sensação que se torna cada vez mais rara, estava ao máximo — uma emoção que anseio reviver agora, com o retorno do filme às telonas. O visual era impressionante, e, embora a animação tenha envelhecido devido ao ritmo acelerado da tecnologia, ela resistiu ao teste do tempo. O motivo é claro: o filme de John Lasseter toca o coração.
Não adiantaria a proeza digital ou as inovações visuais se a história e os personagens não fossem tão envolventes. O verdadeiro legado de Lasseter e sua equipe de roteiristas (que incluíam, além dele, Stanton, Docter e Whedon, também Joel Cohen, Alex Sokolow e Joe Ranft) foi fazer com que nos importássemos genuinamente com Buzz, Woody e todo o elenco de brinquedos secundários.
No final das contas, é isso que realmente importa — e essa é a lição que a Pixar, mesmo com alguns tropeços ao longo de sua trajetória, ensina ao cinema. Queremos rir com os personagens, chorar com eles, acompanhar suas jornadas e nos surpreender. Seja com um viúvo que ergue sua casa com balões, carros que ganham vida e compartilham suas aventuras, ou a explanação sobre como nossas emoções funcionam, mesmo em meio ao caos, para nos tornarmos mais humanos. Seja para nos emocionar quando dois amigos finalmente descobrem que podem voar. Ou melhor, que podem cair com estilo.