Por: Flávia Viana
Clarice Alves está vivenciando um período de intensa efervescência criativa, resultado não apenas de sua formação cosmopolita, mas também de sua capacidade de navegar com facilidade entre diversos contextos culturais e linguísticos. Após iniciar sua trajetória no teatro aos 12 anos e aprimorar suas habilidades com renomados mestres como Susan Batson e John Strasberg, a atriz carioca, que escolheu Madrid como sua segunda residência, agora vê sua carreira se expandir em duas direções simultâneas: o cinema espanhol e a produção audiovisual brasileira.
Em seu horizonte imediato, a artista faz parte do elenco de dois longas espanhóis que estão em fase de pós-produção. Em “Todo Lo Que Nunca Fuimos”, uma adaptação do sucesso literário de Alice Kellen sob a direção de Jorge Alonso e com produção da Warner Bros., ela contracena com a atriz portuguesa Margarida Corceiro em um projeto que já está gerando grande expectativa entre os admiradores da literatura romântica contemporânea.
“É uma responsabilidade enorme dar vida a um personagem em uma narrativa pela qual o público já desenvolveu uma forte conexão. Minha personagem faz parte de uma família única, composta por atores de diversas nacionalidades, e minha preparação centrou-se em expressar a relação com a filha, interpretada por Margarida. Desde o nosso primeiro encontro, a conexão maternal se revelou de forma muito natural, e isso foi meu foco principal. Realizei o teste e, logo em seguida, iniciamos as gravações, com pouco tempo para me preparar. Posso afirmar que mergulhei de cabeça nesse projeto. Minha personagem é uma mãe carinhosa, instintiva e muito presente, com um estilo de vida peculiar, quase hippie, que influenciou a construção da minha interpretação. A experiência de interpretar a mesma mulher em diferentes fases da vida foi marcante, pois em uma cena ela aparece com 40 anos, em outra com 50, e depois aos 55. Encarar a passagem do tempo na tela, com cabelos brancos e rugas, foi uma experiência poderosa. Trabalhar com outras atrizes me fez acreditar plenamente na personagem e viver o tempo que passa”, relata.
Entretanto, em “Sigma”, um longa independente dirigido por Daniel Benmayor, Clarice se depara com um dos papéis mais desafiadores de sua carreira: a proprietária de um bordel, uma figura complexa e repleta de nuances psicológicas que promete explorar novos territórios em sua atuação. “Foi uma realidade completamente nova para mim como artista. O personagem possui várias camadas, que exigem uma transição pelo mistério e um ambiente obscuro, transmitindo uma sensação de ilicitude nas suas ações. A imersão nesse universo, com tão pouco tempo de preparação, foi um desafio, mas confiei no meu trabalho e na visão do diretor. Outro desafio foi dar vida a uma personagem que se comunica de maneira característica, com um sotaque bem pronunciado. Essa abordagem era algo inédito para mim e eu não tinha preparação prévia. Usei observações acumuladas ao longo da vida para moldar a personagem, confiando que seria possível, colaborando estreitamente com o diretor. O processo foi intenso, e a equipe de caracterização trabalhou rapidamente para que tudo estivesse pronto no dia seguinte. A experiência foi incrível e me deixou desejando mais desafios desse tipo”.
Em sua trajetória no cinema, a artista também retorna ao papel de protagonista, um papel que já havia desempenhado no thriller “Urubú”, filmado na Floresta Amazônica e premiado em festivais internacionais. Agora, ela brilha em “Tras los Pasos de la Rubia Platino”, uma produção hispano-americana dirigida por Eduardo Castejón, onde interpreta Ana Galarza, uma policial disposta a enfrentar todos os perigos para proteger sua filha.
Simultaneamente, ela se prepara para sua participação nas produções brasileiras! Clarice está confirmada na sexta temporada de “Impuros” (Disney+), um drama criminal ambientado no Rio de Janeiro dos anos 1990, reafirmando sua intenção de fortalecer sua atuação no mercado nacional sem abrir mão de sua presença internacional.
“Quando reflito sobre minha carreira, percebo um leque de possibilidades, projetos distintos que ampliam meu repertório como atriz. Com ‘Impuros’, ‘Todo Lo Que Nunca Fuimos’ e ‘Sigma’, consegui três trabalhos que dialogam com públicos completamente diferentes. Cada um deles traz características únicas. Por exemplo, ‘Sigma’ é um filme autoral de Daniel Benmayor, um diretor conhecido por grandes produções de ação e que, desta vez, decidiu realizar algo totalmente independente, escrito e produzido por ele em Madrid. Esses filmes, muitas vezes, circulam em festivais, ganhando uma visibilidade diferenciada.
‘Impuros’, por sua vez, é uma série em ascensão no Brasil, da qual sempre fui fã. Admiro muito o trabalho da Lorena e de outros membros do elenco. A trama retrata os anos 90, com todo o contexto do funk e a cultura daquela época, um período que vivenciei de perto no Rio de Janeiro. A recepção foi calorosa, e gravar com René, Tatiana e Tomás Portella foi uma experiência incrível. Isso representa para mim a oportunidade de alcançar um novo público na América Latina e no Brasil.
Por fim, ‘Todo Lo Que Nunca Fuimos’ é uma produção da Warner filmada na Espanha, com um caráter internacional. O elenco conta com artistas de múltiplas nacionalidades: minha filha é portuguesa, meu filho mexicano e meu marido espanhol, além do espanhol Max Iglesias. Essa diversidade enriquece a experiência. Para mim, foi especial construir a relação de mãe e filha com Margarida dentro de uma narrativa tão emotiva e inspiradora.
Essas histórias são completamente distintas, e é exatamente isso que busco como artista: navegar por produções que exijam diferentes camadas de interpretação, que me desafiem e me conectem a variadas formas de criação. Desejo realizar um grande projeto no Brasil, depois atuar em um filme autoral na Espanha e, em seguida, integrar um elenco multicultural. Gosto dessa troca, onde cada um traz um pouco de si, somando à obra. No final, é assim que me percebo: sem fronteiras, sempre expandindo, abrindo novas portas e explorando novas possibilidades”, conclui.