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Austin Butler se consagra como uma estrela no fascinante e sombrio ‘Ladrões’

“Austin Butler é um ator de grande intensidade.” Desde que foi revelado ao mundo em “Elvis”, sua imagem se consolidou de maneira indelével. Sua imersão total no método de atuação, que parecia absorver sua essência, fez com que ele incorporasse o Rei do Rock por um longo período. Em “Duna Parte Dois”, ele apresentou um lado excêntrico, enquanto em “Clube dos Vândalos”, mostrou-se reservado, navegando perigosamente na linha entre a sinceridade e a caricatura de um performer meticuloso.

“Ladrões”, a obra provocativa de Darren Aronofsky, destrói com um único golpe duas certezas do cinema hollywoodiano. A primeira é a desconstrução da imagem sólida de Austin Butler. Pela primeira vez, ele revela a vulnerabilidade que se esconde por trás de sua entrega ao personagem. Interpretando um homem comum enredado em uma trama de crime e morte, Butler se mostra acessível, bem-humorado, afetuoso e, sem dúvida, intenso — um ser humano verdadeiro.

Essa transformação é tanto pessoal quanto profissional. Após “Elvis”, que o levou ao limite da entrega a um papel, Butler percebeu a necessidade de se reinventar — antes de tudo, para evitar se sentir como uma pessoa fragmentada. Observando como Tom Hardy lidava com a pressão em “Clube dos Vândalos” e recebendo conselhos de Laura Dern para não se deixar dominar pelo lado sombrio da profissão, ele entendeu que abraçar um personagem não significava sacrificar outras partes de sua vida. “Ladrões” é a materialização dessa nova visão.

Com um roteiro de Charlie Huston, baseado em seu próprio livro, “Ladrões” apresenta Butler como Hank Thompson, um antigo promessa do beisebol que teve seu futuro interrompido por um acidente de carro que também tirou a vida de seu melhor amigo. No início do filme, ambientado no final dos anos 1990, Hank trabalha como bartender em um bar simples do Lower East Side de Nova York, namora uma paramédica (Zoë Kravitz) e passa seus dias consumindo uma quantidade excessiva de álcool, enquanto sua visão do futuro é sombria.

A trama se complica quando seu vizinho Russ (Matt Smith), um punk londrino expatriado, informa que viajará para ver seu pai doente, deixando Hank responsável por cuidar de seu gato fujão. Logo, pessoas suspeitas aparecem à porta de Russ em busca de algo que ele deixou, colocando Hank em apuros e desencadeando uma narrativa que envolve a máfia russa, policiais da divisão de narcóticos que complicam ainda mais a situação, uma quantia exorbitante de dinheiro e um par de assassinos temidos no submundo nova-iorquino por sua brutalidade extrema.

Em meio a um elenco de estrelas (Regina King, Liev Schreiber, Vincent D’Onofrio, Bad Bunny em uma performance impressionante e um Griffin Dunne irreconhecível), Butler assume o papel de equilibrador em uma história que, embora comece como uma comédia de ação nervosa, rapidamente mergulha em caminhos sombrios e caóticos. Ao guiar o filme através de suas mudanças de tom sem perder o foco (ou o charme), Butler finalmente concretiza a promessa de se tornar a estrela que o cinema contemporâneo tanto anseia: talentoso, carismático e destemido.

Isso nos leva à segunda certeza que “Ladrões” rapidamente desmantela: ao contrário das evidências das últimas duas décadas, Darren Aronofsky é capaz de criar um filme divertido. Sua filmografia, que inclui obras como “Réquiem Para Um Sonho”, “Fonte da Vida”, “O Lutador”, “Cisne Negro” e “mãe!”, costuma oscilar entre o incômodo e o cruel, provocando reflexão sem concessões. A diversão parecia estar fora de questão.

No entanto, ao dirigir “Ladrões”, Aronofsky acionou uma chave que lhe permitiu empregar o humor como uma pausa para acentuar a brutalidade do enredo. A violência aqui é intensa, mas é equilibrada por risadas nervosas e absurdos constantes — como a necessidade de Hank de ligar diariamente para sua mãe na Califórnia para discutir a situação do San Francisco Giants. Este equilíbrio inteligente nos envolve, sugerindo uma leveza que desaparece quando a cruel realidade do submundo do crime se impõe.

Outro ponto forte do cineasta é a ambientação de “Ladrões”. Em uma Nova York anterior aos ataques de 11 de setembro, onde as regras sociais eram menos rígidas e a criminalidade se misturava em um vibrante caleidoscópio pop, Aronofsky se permite uma viagem no tempo, transformando a cidade e o momento histórico em protagonistas — a referência a “Depois de Horas”, de Martin Scorsese (com Griffin Dunne!), não passa despercebida. O resultado é absolutamente impressionante e demonstra como uma narrativa simples pode alcançar novos patamares nas mãos de um diretor verdadeiramente talentoso.

Apesar de parecer perdido em um cenário cinematográfico que oscila entre blockbusters e produções independentes, “Ladrões” se destaca como uma joia que merece ser descoberta. É o filme em que Austin Butler finalmente realiza sua promessa de se tornar uma estrela com todas as suas nuances. Uma obra destinada ao público adulto, que ultrapassa as expectativas de um longa-metragem assinado por Darren Aronofsky, que, surpreendentemente, se sente à vontade ao abraçar a missão de entreter. O cinema tem dessas surpresas.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade